O Brasil está sem uma política cambial?

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Em qualquer manual de Economia se aprende que em geral, bens e ativos produzidos em um país têm que ser pagos na moeda desse país. Produtos brasileiros têm de ser pagos em reais, produtos americanos têm de ser pagos em dólares, produtos europeus têm de ser pagos em euros, produtos japoneses têm de ser pagos em ienes, produtos chineses têm de ser pagos em yuans.  

Deste modo, as transações internacionais requerem um mercado, um mercado de câmbio, em que as moedas podem ser trocadas entre si. Esse mercado determina as taxas de câmbio, os preços pelos quais as moedas são trocadas. Quando se discute o movimento das taxas de câmbio, os economistas dizem que quando uma moeda se torna mais valiosa em termos de outras moedas, essa moeda aprecia; quando uma moeda se torna menos valiosa em termos de outras moedas, ela se deprecia. Supondo que, por exemplo, o valor de € 1 (um euro) tenha sido de US $ 1 (um dólar) para US$ 1,25, o que significa que o valor de US$ 1 foi de € 1 para € 0,8 (já que 1/1,25 = 0,8). Logo, dizemos que o euro teve apreciação e o dólar teve depreciação.

A taxa de câmbio, como outros preços, é determinada pela oferta e pela demanda. Diferente do preço do trigo ou do petróleo, no entanto, a taxa de câmbio é o preço da moeda de um país (em termos da moeda de outro país). A moeda não é um ou serviço produzido pelo setor privado; é um ativo cuja quantidade é determinada pela política governamental. Como decorrência, os governos têm muito mais poder para influenciar taxas de câmbio nominais do que para influenciar preços comuns.

A taxa de câmbio determina o preço das importações e das exportações. Nas economias onde as exportações e as importações são uma proporção elevada do PIB, movimentos na taxa de câmbio podem ter efeitos importantes sobre o PIB e sobre o nível de preços. Sendo assim, o quê os governos podem fazer com seu poder de influenciar esse preço tão importante?

A resposta é: depende. Em diferentes épocas e em diferentes lugares, os governos adotaram uma variedade de regimes de taxa de câmbio. Sem aprofundar os detalhes desta discussão, um regime de taxas de câmbio é uma política governamental de regras em relação à taxa de câmbio. Existem dois tipos principais de regime de taxa de câmbio. Um país tem uma taxa de câmbio fixa quando o governo mantém a taxa de câmbio em relação a alguma outra moeda em uma meta específica ou perto dela. Um país tem uma taxa de câmbio flutuante quando o governo deixa a taxa de câmbio se mover para onde o mercado a leve.

Na economia contemporânea tivemos vários movimentos internacionais de uso destes dois regimes. Em 1944, representantes das nações aliadas se encontraram em Bretton Woods no estado americano de New Hampshire, para estabelecer um sistema monetário internacional para o pós-guerra, com taxas de câmbio fixas entre as principais moedas. O sistema teve grande êxito no início, mas sofreu colapso em 1971. Em 1973 a maioria dos países economicamente avançados adotou o regime de taxas de câmbio flutuantes. Em 1991 os países europeus adotaram, com o euro, o regime de taxas de câmbio fixas.

Com a emergência da China como uma grande potência econômica mundial (com um apetite enorme por crescimento, ao devorar as principais commodities do planeta, e devolvendo ao mundo bens manufaturados cada vez mais competitivos), a discussão sobre qual política cambial se adotar passou a ser uma das questões mais complexas do cenário econômico internacional. Nestes termos nos perguntamos: qual é a política cambial que o Brasil está adotando?

A resposta mais objetiva desta newsletter é: não sabemos! Como não há clareza na política macroeconômica do atual governo, fica difícil entender se o país está adotando uma orientação consistente nesta matéria.

O fato concreto é que estamos com uma moeda valorizada (ver gráfico abaixo, retirado de uma apresentação do Prof. Afonso Celso Pastore no Fórum Nacional).  Segundo o Prof. Pastore,  não há uma causa única para este fenômeno: queda na percepção de riscos macroeconômicos provocou o aumento da demanda por ativos brasileiros; no mercado financeiro internacional cresceram os preços dos bônus de dívida soberana, reduzindo os prêmios de risco; a maior demanda de bônus no Brasil por parte de estrangeiros provocou a entrada de dólares, que valorizou o real.

Infelizmente esta moeda valorizada está contribuindo para aprofundar para o que muitos estão chamando de o fenômeno da “desindustrialização”, ou seja, a perda paulatina da participação da indústria no PIB nacional. Deste modo, seria importante os brasileiros (principalmente os que dependem da indústria) terem uma noção mais clara do que o governo pretende com esta moeda valorizada.

Enquanto isto, estamos vendo que os Estados Unidos têm uma estratégia para depreciação de sua moeda (ver artigo do Prof. Paul Krugman, intitulado “Making Things in America- Fazendo Coisas na América), ao tempo em que a nossa sobe sem estratégia alguma!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja ter uma compreensão maior sobre os impactos da valorização do real na nossa economia, fique a vontade para nos contatar!

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PS: Para a produção deste texto nos valemos de alguns aspectos do livro “Introdução à Economia”, de Paul Krugman e Robin Wells, Editora Campus/Elsevier, 2007.

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