Aumentar os gastos das empresas que já fazem P&D (inovadoras) ou aumentar o número de empresas inovadoras?

IMG 15

Se tivesse que decidir sobre políticas públicas nacionais que buscassem aumentar o esforço brasileiro (privado) de investir em P&D, qual dos dois cursos alternativos você escolheria: aumentar os gastos das empresas que já fazem P&D (chamadas inovadoras) ou aumentar o número de empresas inovadoras?

Este é o desafio a que, de alguma forma, propôs-se o economista Filipe Lage de Souza, da Assessoria da Área Pesquisas Econômicas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social- BNDES, ao publicar, em 29/04/2011, o artigo “O potencial inovador das empresas brasileiras”, divulgado como o número 94 da série “Visão do Desenvolvimento” do banco, que você pode baixar aqui!

O autor inicia o artigo apontando que a “Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) lançada em 2008 teve como um dos seus objetivos elevar o investimento privado em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) para 0,65% do PIB em 2010. Ainda que o Brasil continuasse abaixo dos níveis praticados pelos países da OCDE (1,65% registrado em 2008), o alcance da meta requeria um crescimento expressivo do esforço brasileiro de investir em P&D. Em 2005, o aporte de recursos privados em P&D foi 0,49% do PIB”. Segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT, que podem ser encontrados aqui, em 2008 este aporte foi de 0,53% do PIB, e em 2009 foi de 0,58% do PIB, valores pouco prováveis de terem sido atingidos em 2010 em função da forte contração econômica vivida pelo país em 2009, onde tivemos um crescimento negativo do PIB brasileiro de 0,64% em relação a 2008 (definitivamente um desempenho muito distante de ter sido uma “marolinha”!).

Mas o objetivo do artigo do Filipe Souza é investigar se há no Brasil empresas com mais de 500 empregados com perfil semelhante às inovadoras que possam expandir o investimento privado em P&D. Para tanto, busca identificar os atributos que determinam a capacidade de uma empresa brasileira investir em P&D.

O estudo confirma que o capital humano é uma das principais condições. Nesse sentido, identificou-se o limite de capital humano a partir do qual as empresas têm mais chances de realizar gastos em P&D, e, se esse limite se dá na própria empresa ou onde está localizada. Com base nesses limites, são identificadas quais companhias não inovadoras poderiam contribuir para alcançar a meta estabelecida. A investigação utilizou informações das firmas brasileiras com mais de 500 empregados. O dado primordial é se a empresa investe ou não em P&D, o qual é obtido na Pesquisa de Inovação Tecnológica – PINTEC do IBGE de 2005.

Através da metodologia escolhida para seu trabalho, Filipe Souza chega às seguintes conclusões: “os resultados mostraram que há 168 empresas que não investiram em P&D em 2005, mas têm grande possibilidade de realizar. Essas empresas possuem uma média de escolaridade dos seus empregados de 10,2 anos de estudos, cerca de 4 anos a mais que o limite mínimo considerado necessário para a realização de gastos em P&D. A inclusão desse grupo de empresas seria suficiente para chegarmos a um percentual perto dos 0,65% de gastos privados em P&D no PIB.”

Sem entrar no mérito dos objetivos e da metodologia escolhidos pelo autor, o que se pretende apontar nesta newsletter é o ponto de partida e as premissas do trabalho acima mencionado. Pelo exposto, fica patente que o autor toma (observando o título desta newsletter) o partido do aumento dos gastos das empresas que já fazem P&D, ou melhor, daquelas que têm perfil semelhante às empresas inovadoras e que possam expandir o investimento privado em P&D. E, mais especificamente, o autor privilegia as grandes empresas (*).

Mesmo que o autor tenha tomado a variável capital humano como condição central da sua argumentação, uma avaliação interessante que poderia ser aqui sugerida seria a de comparação entre um estímulo a estas 168 empresas selecionadas (com uma média de escolaridade de 10,2 anos de estudos de seus empregados) e um estímulo a um leque maior de micro, pequenas e médias empresas de base tecnológica, que, em média, têm uma escolaridade muito superior àquelas grandes selecionadas no trabalho aqui referido. Nestes termos, a questão relevante seria: qual dos dois conjuntos de empresas poderia chegar mais rápido aos 65% de gastos privados em P&D no PIB?

Nossa preocupação em apontar a necessidade desta comparação se deve ao fato de que temos uma visão que contrasta com aquela que entende que grande parte da inovação é atribuída a grandes empresas operando em mercados oligopolistas, e não a pequenas empresas.

Uma visão moderna (marcadamente, dentre tantos outros, a dos Profs. Philippe Aghion e Peter Howitt, autores do livro The Economics of Growth- a Economia do Crescimento, editado pela MIT Press em 2009), combinada com evidência de sociedades e indústrias mais competitivas, aponta para uma relação de U invertido entre crescimento e inovação.

Como apontamos na newsletter da semana passada, imaginando num gráfico (ver Figura 1) onde na ordenada se representa a inovação (medida pelo fluxo de patentes) ou o crescimento da produtividade, e na abscissa o grau de competição no mercado de produto, a trajetória da curva (em U invertido) mostra que à medida que cresce a competição cresce a produtividade até um ponto em que ela se reverte, à medida que mais competição emerge e não mais contribui para o crescimento da produtividade.   Portanto, desvendar esta relação em cada segmento econômico é um desafio a ser observado em economias como a brasileira.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre políticas de inovação, fique a vontade para nos contatar!

fig1 txt14

(*) Pela Lei Geral da Micro e Pequena Empresa (Lei Complementar Nº 123, de 14 de Dezembro de 2006),a classificação de micro e pequena empresa por faturamento é: até R$ 240.000, micro empresa; Entre R$ 240.000,00 e R$ 2.4000,00, pequena empresa. O SEBRAE utiliza a classificação do IBGE em termos do número de empregados: até 19 empregados, micro empresa; entre 20 e 99 empregados, pequena empresa; entre 100 e 499 empregados, média empresa; e com mais de 500 empregados, grande empresa.

Creativante 2017 - Todos os direitos reservados