Capitalismo de Laços: o quê isto tem a ver com TICs no Brasil?

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O título acima “Capitalismo de Laços” é o título de um livro recentemente publicado (e cujo subtítulo é “Os donos do Brasil e suas conexões”), escrito por Sérgio G. Lazzarini, e editado pela Editora Elsevier/Campus. Sérgio Lazzarini é PhD em Administração pela Washington University, nos EUA, e é Professor associado de Organização e Estratégia do Insper- Instituto de Ensino e Pesquisa, em São Paulo.

Mas o quê isto tem a ver com TICs no Brasil? A resposta mais simples é: tudo a ver! Em primeiro lugar, o livro aborda um tema altamente relevante (como nos aponta o prefaciador do livro, o economista Cláudio Haddad, Presidente do INSPER): a participação do Estado, direta ou indiretamente, no lado produtivo da economia. E, em segundo lugar, o livro trata desta primeira questão mostrando e analisando dados de forma rigorosa.

O livro começa por responder à seguinte pergunta: como evoluiu no Brasil o grau de entrelaçamento societário desde 1996, quando se iniciou a principal fase das privatizações no governo Fernando Henrique Cardoso? Como mais uma vez nos aponta o prefaciador do livro, pela sabedoria convencional, repetida frequentemente, a participação do governo teria sido reduzida, com o setor privado controlando uma fatia bem maior do setor produtivo e com ela o grau de aglomeração de propriedade, uma vez que novos atores teriam entrado na cena.

Entretanto (continuando o registro do prefaciador), novamente a sabedoria convencional é equivocada. Introduzindo o conceito de laços, aglomerações e atores de conexão entre os diversos acionistas, Sérgio Lazzarini mede a evolução de seu grau de aglomeração, que ele denomina mundo pequeno, por meio de um índice, entre 1996 e 2009. A conclusão foi que esse índice de mundo pequeno em 2009 era mais de um terço superior ao calculado para 1996. Ou seja, o capitalismo de laços se tornou mais forte após o processo de privatização.

Ainda pegando carona no prefaciador, dois fatores explicam esse resultado. Primeiro, houve maior aglomeração no grupo de proprietários e aumento no conjunto de empresas atreladas a grupos controladores comuns. Segundo, e particularmente relevante à discussão, emergiram agentes, que o autor denomina de elevada centralidade, que atuaram como “conectores” de aglomerações. Seus principais atores foram os fundos de pensão de empresas estatais e o BNDES- Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. E mais, seu papel se intensificou de 1996 em diante, fazendo com que a participação do governo na economia e seu potencial controle sobre as atividades produtivas aumentassem após o término do processo de privatização.

Na linha de raciocínio do prefaciador, fazendo referência à obra clássica de Raymundo Faoro, Os donos do poder, Sérgio Lazzarini argumenta que os verdadeiros donos do poder no Brasil são os que se inserem e se articulam em uma rede de laços corporativos, principalmente os que se transformam em elementos de conexão entre os distintos grupos corporativos. Por essa definição, o controle efetivo do Estado no processo produtivo teria se ampliado. Pela mesma métrica, também se ampliou o grau de interferência de alguns atores privados nacionais, não tendo havido nenhum incremento significativo na participação de agentes estrangeiros, tranqüilizando os que temiam uma crescente desnacionalização da economia.

E o que explica esse aparente paradoxo? Deixaremos a resposta para que os leitores a busquem no próprio livro. No entanto, a conexão que queremos fazer deste livro com nossas TICs diz respeito ao fato de que ele contribui muito para um melhor entendimento das razões pelas quais as TICs no Brasil ainda não terem decolado (discussão que levamos a efeito nas últimas newsletters: de 31/01/2011, de 07/02/2011, de 14/02/2011, e de 21/02/2011). Se de um modo estas newsletters focalizaram exclusivamente sua atenção ao que os economistas chamam de questões “do lado da oferta”, de outro modo não se pode deixar de contemplar as importantes questões que dizem respeito ao lado da demanda, onde alguns identificam a origem do “nanismo” das empresas brasileiras de TICs na ausência de espaço para as estas empresas trabalharem no território nacional.

De acordo com recente artigo do empresário do setor de software nacional Jairo Fonseca, Diretor do SINFOR- Sindicato da Indústria de Informação do Distrito Federal, publicado na RevistaTI (www.revistati.com.br)(*), intitulado “MCT- Ministério Cem Tecnologia” (ver http://www.revistati.com.br/revistati/materia/detalhes/cod/1), o setor nacional de tecnologia de software detém 0% (zero por cento) do PIB brasileiro; ou seja, as multinacionais estrangeiras dominam 100% deste mercado no Brasil. Seu artigo é um alerta para o Ministério da Ciência e Tecnologia- MCT se posicionar fortemente em favor da tecnologia brasileira, uma vez que, segundo ele, o próprio MCT não sabe o que é software brasileiro, nem sequer possui uma definição do que é tecnologia de software.

Este artigo do Jairo Fonseca, independente do seu conteúdo, possibilita uma reflexão que remete à tese do capitalismo de laços aqui apresentado. Se, na perspectiva do autor do livro aqui tratado, o capitalismo de laços é um modelo assentado no uso de relações para explorar oportunidades de mercado ou para influenciar determinadas decisões de interesse, por quê o setor de tecnologia de software nacional não obteve êxito em estabelecer os laços de articulação (entre grupos domésticos privados, sistema político, governo e entidades públicas visando as empresas estrangeiras, como no modelo proposto por Sérgio Lazzarini) necessários para uma densidade econômica maior do que aquela indicada pelo empresário Jairo Fonseca?

Esta newsletter considera que este é um ângulo de investigação ainda a ser explorado, mas que certamente poderá contribuir muito para um maior entendimento do porque de nossas TICs ainda não terem decolado!

Se sua empresa, organização ou instituição desejam saber mais sobre as TICs no Brasil, fique a vontade para nos contatar!

(*) Esta revista se intitula a “Revista da Tecnologia da Informação” (uma publicação oficial do setor de tecnologia da informação do país, tendo como patrocinadores ASSESPRO NACIONAL, ABES, SOFTEX, e FENAINFO).

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