O quê falta para as Tecnologias de Informação e Comunicação- TICs do Brasil “decolarem”? Parte 3

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Nas duas últimas newsletters (de 31/01/2011 e de 07/02/2011) iniciamos uma discussão nos perguntando: por quê, apesar das “vontades e aspirações” das entidades representativas do setor de TICs do país, ainda não temos grandes empresas neste segmento econômico, e argumentamos que o que falta para as TICs do Brasil “decolarem” é um verdadeiro “modelo de negócios” para o nosso complexo de Ciência, Tecnologia e Inovação- C&T&I (em sua associação com o complexo da Educação), e um “plano de negócios” que coloque este modelo de negócios para funcionar efetivamente.

Para tanto, apresentamos a indústria das TICs como resultante da conjugação de dois complexos que operam como insumo para sua existência: o de C&T&I (Figura à frente, e que é o objeto da newsletter de hoje) e o de Educação (focando em TICs) do país. No Complexo de C&T&I encontramos as instituições do Sistema Nacional de C&T&I, os mecanismos de Formação de Recursos Humanos em C&T&I, e toda infra-estrutura e fomento da pesquisa científica e tecnológica do país.

Utilizando a metáfora da foto e do filme, onde na primeira encontramos a estrutura do complexo e na segunda encontramos a dinâmica deste mesmo complexo, podemos destacar os seguintes aspectos. Em termos estruturais (ou da foto), o complexo de C&T&I do Brasil é um complexo incompleto (inconcluso) e desequilibrado. É incompleto porque ele tem mais características consolidadas de um complexo de C&T do que as de um complexo de C&T&I, uma vez que as instituições e instrumentos para a inovação no país são recentes e pouco amadurecidos. Esta opinião se baseia tanto em experiência própria da Creativante quanto através de opiniões de renomadas instituições (ver Carta IEDI No. 402- Desafios da Inovação- Incentivos para Inovação: O que Falta ao Brasil, de 12/02/2010- Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, think tank da indústria brasileira) e trabalhos recentes (Manual de Orientações Gerais sobre Inovação, produzido por Eduardo Grizendi para o Ministério das Relações Exteriores, 2011).

Para corroborar esta posição, apoiamo-nos no artigo intitulado “The role of venture capital firms in Slicon Valley´s complex innovation network”, produzido por Michel Ferrary e Mark Granovetter, e publicado no Economy and Society, Volume 38, Number 2, May 2009: 326-359. Entre muitas considerações, para iluminar algumas das principais razões do sucesso do Vale do Silício dos EUA em mais de 70 anos de existência, os autores deste artigo distinguem o que seja um cluster industrial de um cluster de inovação. O primeiro é caracterizado por sua capacidade de gerar e desenvolver inovações incrementais que reforçam sua excelência e competitividade em um domínio industrial específico. Em contraste, um cluster de inovação é caracterizado por sua capacidade de gerar e desenvolver inovações de ruptura que criam novos domínios industriais e redesenham radicalmente sua cadeia de valor industrial.

Nestes termos, o Vale do Silício nos EUA representam um complexo cluster de inovação, onde as empresas de venture capital (capital de risco, ou capital empreendedor) tiveram (e têm) um papel fundamental na estruturação e no desenvolvimento daquele pólo científico, tecnológico e de inovação. Por extensão, como o Brasil ainda não detém, entre várias coisas, um mix de instrumentos de apoio ao P&D do setor privado (que inclui incentivos fiscais - apoio indireto e subvenções - apoio direto) desenvolvido, tampouco um segmento pujante de financiamento via capital de risco, ainda não temos o que se poderia denominar de clusters de inovação aos moldes do Vale do Silício; e isto muito provavelmente contribui para a inexistência de empresas de TICs de grande porte como as americanas.

Do ponto de vista do desequilíbrio do Sistema de C&T&I (a parte do filme da metáfora acima descrita), o desenvolvimento industrial brasileiro contribuiu para a conformação de um grande desequilíbrio sócio-econômico regional. Este desenvolvimento também marcou a conformação de um forte desequilíbrio regional entre as instituições e instrumentos de C&T, levando a uma estruturação recente de um aparato de inovação com um forte viés de desequilíbrio regional. Logo, numa configuração de um processo de “causação circular”, as regiões mais desenvolvidas historicamente no Brasil são aquelas que mais têm condições de acelerar inovações tecnológicas (muito embora ainda não radicais aos moldes dos clusters de inovação dos EUA).

Na próxima newsletter vamos tratar do Complexo da Educação voltado paras as TICs.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre a estrutura de mercado das TICs, sinta-se a vontade para nos contatar!

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