Os Sistemas Nacionais de Inovação ainda fazem sentido hoje?

19 12O conceito dos Sistemas Nacionais de Inovação ganhou popularidade no final dos anos 80 e início dos anos 90 do século passado. O economista inglês Christopher Freeman, falecido em 2010, especialista em estudos sobre ciência, tecnologia e inovação, e que foi fundador e primeiro Diretor da Science and Technology PolicyResearch da Universidade de Sussex na Inglaterra, em vários trabalhos apontava que a primeira pessoa a usar a expressão “national system ofinnovation” foi Bengt-AkeLundvall, professor do Department of Business Studies da Aalborg University, na Dinamarca, marcadamente em um livro original publicado em 1992 sobre este assunto.

Para eles um sistema nacional de inovação é definido como “a rede de instituições dos setores público e privado cujas atividades e interações iniciam, importam, modificam e difundem novas tecnologias” (Freeman); ou “os elementos e relacionamentos que interagem na produção, difusão e uso de conhecimento novo, e economicamente útil ... e são tanto localizados ou enraizados nos limites nas fronteiras de um estado-nação” (Lundvall).

Em nossa opinião o conceito emerge, em parte,da fragilização do poder explicativo (bem como normativo) do modelo linear de inovação inaugurado com a publicação do relatório intitulado “Science, the Endless Frontier” (Ciência, a Fronteira em Fim), que foi elaborado por Vannevar Bush (Diretor do Office of Scientific Research and Development do governo americano) em 1944, a pedido do Presidente Franklin D. Roosevelt, de modo que este tentasse prever o papel da ciência em tempo de paz.

Este modelo linear se baseia em duas máximas propostas por Vannevar Bush: a) a pesquisa básica é realizada sem se pensar em fins práticos; e, b) a pesquisa básica é precursora do progresso tecnológico. Deste modo, o modelo linear que se estabeleceu é uma sequencia que se estende desde a pesquisa básica até a nova tecnologia:

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Pesquisa básica -> Pesquisa aplicada -> Desenvolvimento -> Produtos e serviços

 

Depois do desenvolvimento da bomba atômica (e de sua traumática aplicação em Hiroshima) o mundo passou a perceber o poder da ciência, e muitos países passaram a criar instituições que estabeleceram a primazia do modelo linear de ciência e tecnologia, como era então denominado (e entendidos como base da inovação), bem como cristalizou a dicotomia entre pesquisa básica (pura) e pesquisa aplicada.

Os anos 70 e 80 do século passado foram os anos do impacto do extraordinário sucesso do Japão e da Coréia do Sul, países que não seguiram à risca o modelo linear, bem como o sucesso do soerguimento da Alemanha ocidental, foram alguns dos questionamentos à validade do modelo linear como fonte para desenvolvimento econômico. Logo, se a pesquisa e o desenvolvimento eram usualmente entendidos como decisivos em sua contribuição para inovações radicais, não era mais possível ignorar os muitos outros determinantes, e influenciadores, do progresso técnico ao nível das empresas e das indústrias. Sendo assim, os aspectos sistêmicos da inovação passaram a ser crescentemente observados como determinantes tanto da taxa de difusão de inovações como dos ganhos de produtividade associados com qualquer processo de difusão em particular.

Um dos mais astutos observadores desta fragilização do modelo linear foi Donald E. Stokes. Em seu livro “O Quadrante de Pasteur: A Ciência Básica e a Inovação Tecnológica”, publicado em 1997, Stokes desafiou a visão de Vannevar Bush do modelo linear. Uma passagem deste livro “captura” o sentimento daquele momento. Segundo ele, a Grã-Bretanha publicou em maio de 1993 um Livro Branco sobre política científica e tecnológica no qual se afirmava explicitamente que “O governo não acredita que seja suficiente apenas confiar no surgimento automático de resultados aplicáveis [a partir da ciência básica] que a indústria em seguida utiliza”.

Stokes então propôs um modelo de quadrantes (figura à frente), onde observa que a pesquisa pode ser inspirada por considerações de uso ou por busca de entendimento fundamental. Logo, se uma pesquisa for inspirada pela busca de um entendimento fundamental e não por considerações de uso, ela está no quadrante da célula superior à esquerda, que ele denominou de Quadrante de Bohr, em homenagem ao trabalho do dinamarquês Niels Bohr em sua busca do modelo atômico. A célula no canto direito inferior inclui a pesquisa guiada exclusivamente por objetivos aplicados, sem procurar um entendimento mais geral dos fenômenos de um campo da ciência. Stokes denominou então de Quadrante de Edison, em alusão ao trabalho de Thomas Edison.

O canto superior direito traz a célula contendo a pesquisa básica que busca estender as fronteiras do entendimento, mas que também é inspirada por considerações de uso. Daí Stokes ter denominado o Quadrante de Pasteur, em vista do claro exemplo de combinação desses objetivos no direcionamento de Louis Pasteur para o entendimento e o uso.O último quadrante inclui todas as pesquisas que exploram sistematicamente fenômenos particulares sem ter em vista nem objetivos explanatórios gerais nem qualquer utilização prática.

E como este modelo de Stokes se encaixa nos Sistemas Nacionais de Inovação? Eis aí um dos principais desafios que estão postos para os atuais sistemas nacionais de inovação. Na realidade, os sistemas de inovação que se desenvolveram na grande maioria das nações ainda têm uma forte influência do modelo linear em seus instrumentos e mecanismos constitutivos (tais como métricas), e pouco absorveram a mensagem lançada pelo Modelo de Quadrantes de Stokes.

Além disto, o final do século 20 e início do século 21 foi um período de intensificação da globalização (marcadamente através dos avanços nas tecnologias de informação e comunicação, bem como dos transportes) e do papel das corporações transnacionais no desenvolvimento da pesquisa e do desenvolvimento e da economia mundial. Finalmente, é oportuno colocar o impacto recente da mudança de paradigma da inovação fechada (closed innovation) para a inovação aberta (open innovation), que tratamos na newsletter de 13/11/2011.

Em resumo, assim como os sistemas nacionais de inovação foram uma resposta aos desafios enfrentados pelas nações em seu desenvolvimento do pós II Guerra Mundial, e da fragilização do modelo linear de inovação que, de certa foram, deu suporte a tal desenvolvimento, hoje os atuais sistemas nacionais de inovação se defrontam com novos desafios, cabendo a todos nós a tarefa de examinar quais são seus atuais pontos positivos (que devem ser reforçados) e quais são seus gargalos, de modo que sejam superados.

Se sua empresa, organização e instituição deseja saber mais sobre sistemas nacionais de inovação, fique a vontade para nos contatar!

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