Um Mundo Pós-Americano?

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Nos dias de hoje não faltam análises mundo afora comentando sobre o declínio do “império americano”, o “fim da hegemonia dos EUA”, a “emergência da Ásia, e China em particular”, e por aí vai. Afinal, até que ponto essas análises têm fundamento? Estamos de fato caminhando para um “mundo pós-americano?”. Se sim, quais as implicações disto, e, marcadamente para o Brasil?

Apesar de existirem alguns best-sellers tratando desta temática (vide “The Rise of the Rest”, da recentemente falecida Professora do Massachusetts Institute of Technology- MIT,Alice H. Amsden, de 2001, e “The Post-American World: Release 2.0”, do editor da Revista Times, Fareed Zakaria, de 2011, dentre tantos outros), vamos nos concentrar em dois trabalhos recentes de renomados autores americanos especializados em questões estratégicas e militares, a saber: “The Global Power Shift from West toEast”, do Prof. Christopher Layne, da Texas A&M University, e “The Twenty-FirstCentury Will Not Be a “Post-American” World”, do Prof. Joseph S. Nye, Jr., da Harvard University.

O primeiro texto se pergunta: O que substituirá a Velha Ordem? (a “velha ordem mundial” é a ordem internacional após 1945, também chamada “Pax Americana”) Como Washington pode proteger seus interesses na nova era global? E quanta ruptura internacional irá acontecer na transição da velha para a nova?

Ao tentar responder, o Prof. Layne argumenta que a constelação de poder mundial está mudando e que a grande estratégia dos EUA terá de mudar com ela. Para ele: “as elites americanas devem reconhecer o fato de que o Oeste não desfruta de uma hegemonia predestinada na política internacional que esteja presa no futuro por um indeterminado período de tempo. O mundo Euro-Atlântico teve um longo prazo de dominância global, mas ela está chegando ao fim. O futuro é mais provável ser conformado pelo Leste”.

O segundo texto é um saudável, mas crítico, diálogo com o primeiro. Para o Prof. Nye, as pessoas, como o Prof. Layne, deveriam ser cautelosas em extrapolar tendências de longo prazo dos ciclos de curto prazo. Estes comportamentos emocionais têm precedentes. Os americanos têm uma longa história de estimar incorretamente seu poder. Depois do Sputnik, os Soviéticos ficaram “3 metros mais altos”; nos anos 80, foram os japoneses. Agora são os Chineses. Além disso, há uma confusão entre os conceitos de polaridade e hegemonia.

Segundo o Prof. Nye, desde seu livro “The Paradox of American Power: Why the World´s only super power can´t go it alone”, de 2002, ele argumenta que depois do colapso da bipolaridade da Guerra Fria, o poder na era global da informação se tornou distribuído em um padrão que relembra um complexo jogo de xadrez tri-dimensional. No topo,na camada de cima do tabuleiro do xadrez, o poder militar é amplamente uni-polar, e os EUA irão reter primazia por algum tempo. Mas na camada do meio do tabuleiro, o poder econômico tem sido multi-polar por mais de uma década (bem antes da crise financeira de 2008, que o Prof. Layne cita em seu texto), com os EUA, Europa, Japão e China como os maiores jogadores, e outros ganhando importância. A camada de baixo do tabuleiro é o palco das relações transnacionais que cruzam as fronteiras para fora do controle do governo. Ela inclui atores não-estado tão diversos quanto banqueiros transferindo fundos eletronicamente, terroristas transferindo armas, hackers ameaçando a cyber-security, e ameaças tais como pandemias e mudança climática. Nesta camada, o poder é amplamente difuso, e não faz sentido falar de unipolaridade, multipolaridade, ou hegemonia.

Apesar de concordar com o Prof. Layne de que está havendo uma mudança de riqueza do Oeste para o Leste, é um erro exagerar o poder chinês. Para o Prof. Nye, mesmo que o PIB chinês supere aquele dos EUA, as duas economias serão equivalentes em tamanho, mas não iguais em composição. A China ainda continuaria a ter uma vasta e subdesenvolvida área rural, e começará a enfrentar problemas demográficos dos efeitos tardios de sua política de um filho por casal. Como os chineses dizem, eles temem que o país fique velho antes de ficar rico. Ademais, a renda per capita oferece uma medida de sofisticação de uma economia. A China não será igual aos EUA em termos de PIB per capita até algum tempo na metade deste século.

Após arrolar uma série de aspectos associados com a pujança da economia dos EUA, o Prof. Nye conclui que a era global de informação deste século 21 será diferente da do século passado, e irá requerer uma estratégia melhor que os EUA usaram na década passada, mas ela (a era) não será a de “um mundo pós-americano”.

Esta newsletter tende a concordar com o Prof. Nye, e argumenta que esta visão tem implicações para o futuro do Brasil. Mas o exame destas implicações fica para uma outra oportunidade!

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