Por que não há multimilionários no Porto Digital, ainda? (Parte II)

05 12

Na newsletter da semana passada, argumentamos que uma hipótese que responderia a pergunta do título acima estaria relacionada com o fato de que, como o Brasil não desenvolve inovações de ruptura, mas sim inovações incrementais na área de TICs, o país (com seus parques, e o Porto Digital em particular), ainda não é capaz de originar inovações radicais em TICs que sustentem novas indústrias e grandes empresas (e multimilionários) compatíveis com estas indústrias.

Levantamos também uma segunda hipótese: a de que o Brasil ainda não desenvolve tecnologias de ruptura na área de TICs pelo fato do país não deter um mercado de funding (o levantamento de recursos, usualmente na forma de dinheiro, ou outros valores, tais como esforço/competências ou tempo, para um projeto, pessoa, um negócio) equivalente, em termos de sofisticação, ao que existe em outros centros desenvolvidos (como no Vale do Silício). Esta hipótese será trabalhada brevemente nesta newsletter.

Este tema já foi, de alguma forma, tratado em outras ocasiões nesta newsletter. Quando discutimos porque as TICs do Brasil não “decolam” (discussão que levamos a efeito nas edições de 31/01/2011, de 07/02/2011, de 14/02/2011, e de 21/02/2011), argumentamos que faltava, e ainda falta,ao Brasil, um verdadeiro “modelo de negócios” para o nosso complexo de Ciência, Tecnologia e Inovação- C&T&I (em sua associação com o complexo da Educação), e um “plano de negócios” que coloque este modelo de negócios para funcionar efetivamente. 

Para tratar especificamente da questão do funding(que é mais que financing), apoiamo-nos no artigo intitulado “The role of venture capital firms in SiliconValley´s complex innovation network”, produzido por Michel Ferrary e Mark Granovetter, e publicado na revista Economy and Society, Volume 38, Number2, May 2009: pages326-359.  Ao apontar algumas das principais razões do sucesso do Vale do Silício dos EUA em mais de 70 anos de existência, os autores deste artigo distinguem o que seja um cluster industrial de um cluster de inovação.  O primeiro é caracterizado por sua capacidade de gerar e desenvolver inovações incrementais que reforçam sua excelência e competitividade em um domínio industrial específico.  Em contraste, um cluster de inovação é caracterizado por sua capacidade de gerar e desenvolver inovações de ruptura que criam novos domínios industriais e redesenham radicalmente sua cadeia de valor industrial.

Segundo estes autores, a presença de um agente específico em uma rede (eles enxergam a economia como uma rede complexa, onde os nós são as empresas e os links representam os vários elos econômicos e financeiros que as conectam) induz interações específicas com outros agentes, as quais não aconteceriam se este agente não estivesse lá. Logo, a diversidade dos agentes influencia a dinâmica do sistema. A presença de amplo número de empresas de Venture Capital - VC (ou capital empreendedor, como vem se denominando no Brasil) em um cluster de inovação abre potenciais interações específicas com outros agentes na rede (universidades, grandes empresas, laboratórios) que determinam uma dinâmica particular de inovação.

Nesta perspectiva, o que é distintivo (na opinião dos autores) sobre o Vale do Silício é seu completo e robusto sistema complexo de inovação suportado por redes sociais de agentes econômicos interdependentes em que as empresas de VC têm uma função específica. Os autores então tratam de cinco diferentes contribuições das empresas de VC para o Vale do Silício: financing (financiamento), selection (seleção), collective learning (aprendizado coletivo), embedding (inclusão/aglutinação), e signalling (sinalização). Estas cinco funções são diferentes modos para as empresas de VC interagirem com outros membros da complexa rede de inovação, e para darem suporte à robustez do sistema.

No caso do Brasil, para sermos breves, o mercado destes agentes (empresas de VC e congêneres) ainda está em evolução (ele é relativamente recente no sistema financeiro do país – no caso da área de tecnologia tem precisado contar com estímulos/incentivos de agentes públicos, como a FINEP e o BNDES; é esparsamente estruturado; e é desigualmente distribuído no território nacional), e, quando se observa a ausência de um modelo de negócios para o nosso complexo de Ciência, Tecnologia e Inovação- C&T&I (em sua associação com o complexo da Educação), é fácil concluir que este mercado ainda não “mimetiza” plenamente as funções (acima apontadas) que os mesmos agentes desempenham em clusters como o do Vale do Silício.

Em resumo, dadas as deficiências estruturais aqui apontadas, cremos que ainda estamos longe de um ambiente propício ao desenvolvimento de tecnologias de ruptura, que seja capaz de originar inovações radicais em TICs que sustentem novas indústrias e grandes empresas (e multimilionários) compatíveis com estas indústrias.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre o sucesso de parques tecnológicos, fique a vontade para nos contatar!

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