Por que não há multimilionários no Porto Digital, ainda?

05 12

O Porto Digital, parque tecnológico (ou cluster, ou arranjo produtivo local, como também é conceituado) de empresas de software e serviços de tecnologia da informação e comunicação – TICs, localizado no bairro do Recife, em Recife, Pernambuco, fundado no ano de 2000, que abriga cerca de 200 empresas empregando cerca de 6.000 pessoas, vem sendo considerado por várias instituições e organizações como um dos melhores, e mais inovadores, parques do Brasil.

O Porto Digital conta com organizações de tecnologia e inovação de destaque nacional e internacional, tais como o C.E.S.A.R. - Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, criado em 1996 a partir premiado Centro de Informática - CIn da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, e com empresas que desenvolvem produtos e serviços tanto para o Brasil quanto para fora do seu território, o que permite que algumas vezes alguns lembrem exemplos de parques tecnológicos como o Vale do Silício, nos Estados Unidos, berço de vários nomes mundialmente conhecidos, como a Hewlett Packard- HP, Intel, Oracle, Apple, Google, Facebook, dentre muitos outros naquele país, ou de outros centros espalhados pela Europa e pela Ásia.

A questão que gostaríamos de tratar brevemente nesta newsletter é: por que apesar de passados alguns anos (o CIn teve sua origem a partir da criação do Departamento de Estatística e Informática e do Mestrado em Informática da UFPE em 1974), depois de incentivos de variada natureza (apoios de governos federal, estadual e municipal), e de atração de vários negócios para a região, o Porto Digital ainda não produziu seus multimilionários (pelo menos ao conhecimento desta newsletter), ou grandes empresas de projeção internacional?

Uma primeira hipótese que gostaríamos de avançar aqui neste breve espaço é a seguinte. Como o Brasil não desenvolve inovações de ruptura, mas sim inovações incrementais na área de TICs (conceitos mundialmente popularizados pelo Prof. Clayton Christensen, da Harvard Business School, em seu livro “The Innovator´s Dilemma: When New Technologies Cause Great Firms to Fail" - O Dilema do Inovador: Quando Novas Tecnologias Causam Falhas em Grandes Empresas” - Harvard Business Press, 1997), o país (com seus parques, e o Porto Digital em particular) ainda não é capaz de originar inovações radicais em TICs que sustentem novas indústrias e grandes empresas (e multimilionários) compatíveis com estas indústrias.

Em seu livro o Prof. Christensen descreveu dois tipos de tecnologias: sustaining technologies (tecnologias incrementais ou de sustentação) e disruptive technologies (tecnologias de ruptura). As tecnologias incrementais são tecnologias e inovações que melhoram a produtividade de produtos. Estas são tecnologias que a maioria das grandes empresas está familiarizada, e a grande maioria é adepta em estabelecer desafios de tecnologias incrementais como metas. Mas o Prof. Christensen defende que grandes empresas (raras exceções à regra) têm grandes problemas em lidar com tecnologias de ruptura.

As tecnologias de ruptura são inovações que resultam em produtos com menor desempenho de produto, pelo menos no curto prazo. Elas são geralmente mais baratas, mais simples, menores, e, frequentemente mais convenientes para uso. Elas ocorrem menos frequentemente, mas quando ocorrem elas causam falha em empresas de alto sucesso que somente estão preparadas para as tecnologias incrementais.

Como pode ser visto na figura à frente, as tecnologias de ruptura causam problemas porque elas inicialmente não satisfazem as demandas mesmo da faixa mais sofisticada do mercado. Por isso, grandes empresas escolhem ignorar as tecnologias de ruptura até que elas se tornam mais atrativas do ponto de vista de lucro. No entanto, estas tecnologias eventualmente superam as tecnologias incrementais em satisfazer as demandas do mercado com baixos custos. Quando isto acontece, as grandes empresas que não investiram nas tecnologias de ruptura logo ficam para trás. Este é o “dilema do inovador”. Logo, para terem sucesso as empresas têm que estar aptas a identificar, desenvolver e comercializar tecnologias de ruptura potencialmente emergentes antes que elas superem suas tradicionais tecnologias incrementais.

Aparentemente este é um dos graves problemas que o Brasil enfrenta, juntamente com seus parques tecnológicos, como o Porto Digital; daí a ausência de grandes empresas e seus multimilionários. Mas isto remete a uma segunda questão: por que o Brasil ainda não desenvolve tecnologias de ruptura na área de TICs?

Nossa segunda hipótese é a de que o Brasil ainda não detém um mercado de funding (o levantamento de recursos, usualmente na forma de dinheiro, ou outros valores, tais como esforço/competências ou tempo, para um projeto, pessoa, um negócio) equivalente, em termos de sofisticação, ao que existe em outros centros desenvolvidos (como no Vale do Silício). Mas o tratamento desta hipótese fica para uma próxima newsletter.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre o sucesso de parques tecnológicos, fique a vontade para nos contatar!

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