A empresa como uma “estrutura de governança” (Final)

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O que significa entender a empresa como uma “estrutura de governança”? De acordo com as teorias econômicas da empresa, a forma “default” (pré-definida) de trocas econômicas é através do mercado. Assim entendido, o mecanismo de preços do mercado é assumido como sendo aquele que melhor aloca os recursos da economia. Desta forma, a empresa é um mecanismo alternativo ao mercado(ou um método alternativo de coordenar a produção econômica), assim como são os sistemas híbridos, como as cooperativas, as organizações sociais, e por aí vai.

Mas o que faz com que a empresa surja, e cumpra um papel que talvez o mercado não possa cumprir de forma eficiente? Segundo um artigo de 1937, publicado pelo economista Ronald Coase (intitulado The Nature of the Firm- A Natureza da Empresa), que lhe rendeu (entre outros trabalhos) o Prêmio Nobel de Economia de 1991, a principal razão pela qual é mais lucrativo estabelecer uma empresa parece ser que há um custo de usar o mecanismo de preço. Este custo é o que denominou como custo de transação.

Para exemplificarmos de forma mais concreta, um destes custos são os custos de garimpar, coletar, processar, recuperar, armazenar, integrar, reusar, distribuir e agregar informação. E uma empresa que pode ser considerada como uma das mais representativas da mitigação deste tipo de custos é o Google, que surgiu com a missão de “organizar a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil”; daí seu enorme sucesso global.

Ao entender a empresa desta forma, estamos considerando que ela é um arranjo institucional alternativo que substitui a troca espontânea de bens e serviços do mercado por uma estrutura governada por uma hierarquia, que é uma construção organizacional, baseada em contratos relacionais (acordos informais não julgados por cortes), e não contratos formais (executáveis de acordo com as cortes), como são os do mercado.

Oliver Williamson, Prêmio Nobel de Economia de 2009, aponta que as empresas existem porque todos os contratos complexos são incompletos. À medida que o custo de completar transações no mercado aumenta, e sua complexidade aumenta, ou quando a especificidade de ativos (*) aumenta, chega-se a um ponto que só faz sentido conduzir transações dentro da empresa.

E por que o termo governança surge para tratar a empresa? De acordo com esta visão da empresa a unidade básica de sua análise é a transação. A transação incorpora três aspectos centrais: conflito, mutualidade e ordem. A governança, neste sentido, é o meio pelo qual se induz ordem, e através disto se mitiga o conflito e se realiza o mais fundamental de todos os entendimentos em economia: o ganho mútuo de troca voluntária.

Em outras palavras, entender a empresa como uma estrutura de governança é entendê-la como uma entidade hierárquica (que envolve, entre outras coisas, cadeia de comando, amplitude de controle, autoridade, poder, responsabilidade) que substitui o mercado através da condução de transações econômicas complexas que requerem habilidades específicas para tratamento de ativos específicos, de modo que sejam atenuados conflitos existentes para que trocas econômicas sejam efetuadas, de forma ordenada e com ganhos mútuos entre os agentes.

Mesmo que possa parecer um pouco complicado, entender a empresa desta forma é mais aconselhável do que percebê-la como um simples ato voluntarioso de preenchimento de uma tela (canvas), onde são definidas algumas poucas variáveis estáticas, e onde se espera que um “modelo de negócios” seja definido, e que o mesmo possa ser repetível e escalável de forma “milagrosa”, como sugerem alguns do recente movimento das startups no mundo!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre a empresa como uma estrutura de governança, fique a vontade para nos contatar!

 

(*) A especificidade de ativos, conceito sugerido por Oliver Williamson, é usualmente definida como a extensão pela qual os investimentos (físicos ou humanos) feitos para dar suporte a uma transação particular têm um valor maior para aquela transação do que teria se eles fossem reempregados para qualquer outro propósito.

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