A Teoria da Modularidade na Mudança Industrial

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Muito se tem falado no Brasil sobre mudança estrutural da nossa economia. Este debate é hoje polarizado pela discussão da presença (ou não!) do fenômeno da “desindustrialização”, que, em breves palavras, é mais conhecida pela perda de participação da indústria de transformação no PIB - Produto Interno Bruto de uma economia, ou pela “re-primarização” das exportações desta economia (ou seja, a volta da predominância dos produtos primários nas exportações).

No Brasil o debate chegou à literatura com a publicação recente (neste início de ano) do livro “O Futuro da Indústria no Brasil: desindustrialização em debate”, organizado pelos economistas Edmar Bacha e Monica Baumgarten de Bolle, e editado pela Civilização Brasileira. O que gostaríamos de argumentar brevemente nesta newsletter é que a grande maioria destas discussões se concentra nos efeitos/impactos das mudanças estruturais recentes, pouco atentando para os determinantes principais destas mudanças, marcadamente no interior da indústria.

Um conjunto de estudos e pesquisas vem ganhando densidade nas literaturas acadêmica e profissional, cujo interesse se concentra em tentar radiografar o que vem acontecendo nas mudanças recentes no setor industrial. Uma das explicações está sendo denominada de a Teoria da Modularidade na Mudança Industrial. Esta teoria diz, de forma bem resumida, que durante os estágios iniciais da história de uma indústria, quando os produtos ainda não são bons o suficiente para satisfazer a maioria dos consumidores, a melhor maneira de competir é produzir produtos bons e confiáveis. Para competir desta forma, quase sempre, a arquitetura do produto tem que ser proprietária e independente de outras empresas. Mas em períodos posteriores, quando a indústria amadurece e o desempenho geral dos produtos é mais que bom o suficiente para o que as pessoas necessitam, então a melhor maneira de competir é através da modularidade. Os inovadores, que são rápidos, flexíveis, e atentos, podem comandar isto através de uma precificação prêmio. E a arquitetura do produto tem que se tornar aberta em seu caráter (*).

Podemos caracterizar o avanço recente desta teoria a partir do artigo de Ron Sanchez e Joseph T. Mahoney, intitulado “Modularity, Flexibility, and Knowledge Management in Product and Organization Design”, publicado na revista Strategic Management Journal, Vol. 17 (Winter Special Issue), 63-76, de 1996 (**), e pela aplicação contemporânea do método da modularidade nos projetos da indústria automobilística. Por esta teoria, modularidade é uma base para se entender a organização da atividade econômica. Modularidade é uma forma especial de Arquitetura (conceito que o editor desta newsletter vem trabalhando há uns 5 anos e tem publicado a respeito: aqui, aqui, e aqui).

Arquiteturas podem ser modulares ou não-modulares. Uma arquitetura modular é uma em que as interfaces foram especificadas (tanto como resultado de um objetivo estratégico como um resultado emergente) de forma que um leque de variações de componentes possa ser introduzido no projeto do sistema sem ter que fazer mudanças tanto nos componentes funcionais quanto em qualquer especificação de interface. A arquitetura modular é uma em que um leque de componentes funcionais – sejam componentes de produtos ou de processos – pode ser facilmente “plug and play” em um projeto de sistema.

Já a arquitetura não-modular é um sistema de projeto em que a introdução de uma variação nova de componente requer o redesenho da arquitetura até certo ponto – i.e., fazendo mudanças nos tios ou variações nos componentes funcionais usados na arquitetura, e/ou criando novas especificações de interfaces para gerenciar as interações entre as novas variações de componentes. Tais sistemas podem alguma vezes ser criados para servir a um simples propósito sob um ambiente estável e condições bem definidas, mas eles não podem ser adaptados para novos propósitos ou novas condiçõessem uma significativa re-arquitetura do projeto do sistema.

Esta teoria tem sido importante na reflexão sobre o fenômeno do revigoramento da indústria de transformação nos EUA, e, de modo particular sobre o papel da Pesquisa e Desenvolvimento - P&D (e de inovação) neste processo. Como se questionam Gary P. Pisano e Willy C. Shih, em um artigo publicado na Harvard Business Review, em março de 2012, intitulado “Does America Really Need Manufacturing?”: "como você pode dizer se ao mover sua produção meio mundo, longe das suas operações de P&D, isso irá prejudicar a habilidade de sua empresa em inovar no longo prazo?". Segundo os autores, você precisa olhar para duas coisas: a habilidade do P&D e da Manufatura operarem independentemente um do outro, ou seja, a modularidade da sua operação; e a maturidade de sua tecnologia de manufatura.

Quando o P&D e a manufatura são altamente modulares, as maiores características do produto (especificações, funcionalidades, estética, e por aí vai) não são determinadas pelos processos de produção, e as duas atividades podem ser localizadas separadamente sem qualquer consequência. Quando a modularidade é baixa, o desenho do projeto não pode ser completamente codificado em especificações escritas, e as escolhas de projeto influenciam as escolhas da manufatura (e vice-versa) em formas difíceis de se prever. Nestes casos, manter a manufatura próxima do P&D é aconselhável.

Como o assunto é interessante, e pode contribuir enormemente para a discussão sobre o “futuro da indústria no Brasil”, voltaremos a tratar este tema brevemente.

Se sua empresa, organização ou instituição, deseja saber mais sobre o futuro da indústria, particularmente sob a ótica microeconômica (envolvendo temas como modularidade dos processos econômicos), fique a vontade para nos contatar!

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(*) Esta breve definição pode ser encontrada numa entrevista recente do Prof. Clayton Christensen (uma das maiores autoridades do mundo em inovação) à revista Strategy + Business: http://bit.ly/YZgeei.

(**) As raízes do conceito de modularidade são encontradas no trabalho seminal sobre near-decomposability (quase-decomponibilidade) dos sistemas por Herbert Simon (1962), intitulado “The architecture of complexity”. Proceedings of the American Philosophical Society, 106 (December): 467-482. Simon foi Prêmio Nobel de Economia em 1978.

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