Capitalismo Hierárquico na América Latina: Negócios, Trabalho e os Desafios do Desenvolvimento Justo

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O editor desta newsletter acabou de ler a versão kindle do livro com o título acima, produzido pelo Prof. Ben Ross Schneider, do Department of Political Science do Massachusetts Institute of Technology- MIT dos EUA, e que foi lançado em agosto deste ano pela Cambridge University Press.

Como primeiro comentário, pode-se dizer que o livro é indispensável (senão, imprescindível) para que se possa conhecer (com novos detalhes) o Brasil (e a América Latina) através de um enfoque relativamente novo (de Varieties of Capitalism- Variedades do Capitalismo, marcadamente a partir do livro “Varieties of Capitalism: The Institutional Foundations of Comparative Advantage”, editado por Peter Hall e David Soskice, em 2001, pela Oxford University Press), e que se distancia dos enfoques mais tradicionais, como o internacionalista e o estatista (muito privilegiado por grande parte dos intelectuais latino-americanos que insistem em só perceber a intervenção estatal na economia).

O Prof. Schneider, um “fino” intelectual (tanto no trato quanto no físico, de atleta que é), estudioso da América Latina de longa data, parte neste seu livro de quatro hipóteses centrais:

1) A América Latina tem uma forma distinta e duradoura de capitalismo hierárquico (*) caracterizado por corporações multinacionais, diversificados grupos de negócios, baixa qualificação de sua força de trabalho, e mercados de trabalho segmentados;

2) Complementaridades institucionais “engendram” juntas características de governança corporativa e mercados de trabalho, e isso contribui para a resiliência do capitalismo hierárquico;

3) Elementos do amplo sistema político favorecem incumbentes e insiders (membros de um limitado e privilegiado grupo) que pressionam governos para sustentar instituições importantes; e

4) O capitalismo hierárquico não tem gerado bons empregos suficientes e desenvolvimento justo, nem é, por sua própria conta, capaz de.

Para desenvolver estas hipóteses em seu livro, o Prof. Schneider se vale de arcabouços teóricos da nova Economia Institucional e da Economia Organizacional (marcadamente a partir dos trabalhos dos Economistas, Ronald Coase, Douglass North e Oliver Williamson, Prêmios Nobel de Economia de 1991, 1993, e 2009, respectivamente), além, é claro, de seu enfoque de perceber a estrutura e a dinâmica das sociedades e economias latino-americanas através de uma visão inovadora que leva em conta quatro dimensões componentes do capitalismo hierárquico: a) os grupos (ou os grandes grupos) de negócios; b) as corporações multinacionais; c) os atomizados e segmentados mercados de trabalho; e, d) as baixas qualificações dos trabalhadores.

Ao examinar complementaridades e compatibilidades internas entre estas quatro dimensões, o Prof. Schneider procura, de forma inovadora, investigar como a existência, ou a força, de uma instituição (por exemplo, os grandes grupos de negócios) em uma dimensão da economia afeta os incentivos e instituições em outra dimensão da economia (como nos mercados de trabalho). A metodologia parte da diferenciação entre os quatro tipos de capitalismo tratados no livro: o das economias liberais de mercado (cujo representante mais significativo são os Estados Unidos), o das economias de mercado coordenadas (representadas pela Alemanha), as economias de mercado em rede (cujo representante tratado é o Japão), e, finalmente, o das economias de mercado hierárquicas da América Latina.

Finalmente, é possível argumentar que se trata de um livro (com três partes e oito capítulos) de leitura extremamente agradável, bem adequada ao leitor não especializado, e que proporciona uma nova visão para se entender os problemas de países como o Brasil, onde, em geral, os problemas são analisados (frequentemente) de forma disciplinar, segmentada (tanto por economistas quanto por outros cientistas sociais), sem levar muito em consideração as interseções, inter-disciplinaridades, complementaridades, e retro-efeitos, das questões tratadas. Em resumo, recomendamos fortemente este fascinante livro!

Se sua empresa, organização, ou instituição deseja saber mais sobre capitalismo hierárquico, sinta-se a vontade para nos contatar!

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(*) O termo hierárquico é tomado emprestado de uma caracterização das estruturas de governança econômica proposta pelo Prof. Oliver Williamson, segundo a qual as economias são marcadas pela existência das relações “de mercado” e pelas relações “não-mercado”, como, por exemplo, as estruturas corporativas (corporações, empresas, startups), bem como as relações híbridas (redes de empresas, consórcios, empresas de economia mista, etc.)

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