ZEITs – Zonas Especiais para Integração de Tecnologias

14 17Já está quase se tornando lugar comum (nos dias atuais) se falar que as economias mundiais estão em processo de desindustrialização, conceito simplificadamente entendido como uma diminuição da participação da indústria na composição do PIB – Produto Interno Bruto, e na geração de empregos.  Aqui no Brasil esta questão já saiu dos contextos acadêmicos e virou tema de um livro reunindo uma coletânea de trabalhos de especialistas econômicos.

Apesar da importância das questões tratadas (que têm um perfil essencialmente diagnóstico) neste livro, e em outros trabalhos, pouco esforço tem sido observado na literatura com relação às visões dos profissionais de tecnologia, inovação e de negócios, no que diz respeito às questões de natureza mais preditiva e prognóstica para enfrentamento do fenômeno da desindustrialização.

Nesta newsletter vamos tratar de um conjunto de sugestões (apresentadas brevemente) que caminham na direção do que aqui se denomina de “Uma Nova Estratégia de Desenvolvimento de Tecnologia, Inovação e Modelos de Negócios Para o Brasil”.  Para a proposição desta nova estratégia, vamos partir de um simples arcabouço analítico da teoria da administração dos negócios, denominado “Smiling Curve” (Curva Sorriso).  Esta curva é uma representação gráfica de como o valor adicionado/agregado numa atividade econômica varia ao longo de diferentes estágios ao trazer-se um produto ao mercado em uma indústria manufatureira relacionada à tecnologia de informação.  O conceito foi proposto pela primeira vez por volta de 1992 por Stan Shih, o fundador da Acer Inc., uma companhia de computadores pessoais sediada em Taiwan/China.

Segundo a observação de Shih, na indústria dos PCs os dois extremos da cadeia de valor – concepção e marketing – registram maiores valores adicionados ao produto do que a parte mediana da mesma cadeia de valor – a manufatura.  Se este fenômeno é apresentado em um gráfico com um eixo Y para o valor adicionado e um eixo X para a cadeia de valor (nos estágios da produção), a curva resultante parece um “sorriso”.

Para mostrarmos esta curva sorriso em um gráfico, optamos por uma representação da mesma a partir de uma observação feita pelo Prof. Silvio Meira, em uma de suas palestras. Segundo o Prof. Meira, a curva sorriso tem um formato como a da Figura 1 à frente, com um produto sendo pesquisado e desenvolvido, numa etapa primeira, em laboratórios (de P- Pesquisa & D - Desenvolvimento), depois passa pela fase de design e projeto, para então ir para a manufatura, e, logo depois dos processos de marketing e vendas, chega à etapa de serviços e atendimento pós venda.  Como visto na figura, as etapas extremas são as que mais agregam valor ao produto.

O Prof. Meira aponta, utilizando como exemplo a indústria contemporânea de fabricação de automóveis, que as etapas de design e projeto, bem como serviços e atendimento diminuíram em importância e passaram a ser commoditizadas, e que as novas etapas de maior agregação de valor são aquelas extremas (na cadeia de valor), ou seja, de ideação/integração de componentes e sistemas voltados para a autonomia dos automóveis, bem como as de desenvolvimento de sistemas e redes de mobilidade compartilhada (ver Figura 2 à frente).

O que pretendemos argumentar nesta newsletter é que a Figura 2 à frente não representa apenas uma interpretação para o que está acontecendo hoje com a indústria de fabricação de automóveis, mas sim, algo que está ocorrendo na grande maioria das indústrias de bens de capital e de bens de consumo em todo o mundo.  Representa uma mudança substantiva na organização da indústria manufatureira, a partir de uma mudança radical natureza dos bens hoje industrialmente produzidos, mais visualizados pelos denominados PICs- Produtos Inteligentes Conectados, e pelos novos SITICs -Serviços Intensivos de Tecnologia de Informação e Comunicação, tal como apontado no documento principal do Consórcio POETAS.ITPolíticas e Estratégias para Tecnologias, Aplicações e Serviços para a Internet de Tudo, que define uma estratégia nacional para a Internet das Coisas no Brasil.

Sendo assim, para que essa re-organização da indústria no mundo se materialize e ganhe escala no Brasil, faz-se necessária uma apropriação da curva sorriso da Figura 2 em termos de novas políticas públicas voltadas para a economia nacional.  E um primeiro passo nesta direção é a re-organização dos arcabouços institucional e regulatório vigentes no país (representados pela curva sorriso da Figura 1), e fazê-los migrarem para se adequarem às novas etapas da Figura 2.

E por que essa re-organização da indústria tem que ocorrer agora? A indústria brasileira está em crise. A produção industrial se encontra atualmente em patamar equivalente ao observado em janeiro de 2004. Trata-se, portanto, de mais de uma década perdida. De acordo com recente trabalho do BNDES, de 2010 a 2016, a produção industrial caiu quase 20% no Brasil, ao mesmo tempo que cresceu 20% no mundo. Esse descolamento sugere que as dificuldades do país têm origens domésticas. É de se ressaltar que essa queda na produção industrial se deu apesar do propalado “resgate” de políticas industriais a partir de 2003/04 (ver POETAS.IT), e de massivas injeções de recursos financeiros por parte do BNDES.

Neste sentido, vimos propor a criação das ZEITs – Zonas Especiais para Integração de Tecnologias.  Estas ZEITs seriam nossas novas plataformas de integração, ou recombinação, de tecnologias, inovações e modelos de negócios.  E por que integração e recombinação? Porque é o que nos cabe, como nação, neste "latifúndio" do século 21, já que não geramos nem ciência nem tecnologia na fronteira do conhecimento.   Nós temos sim, condições, habilidades e competências para "integrar e recombinar coisas".

Para citar um recente exemplo da importância estratégica dos componentes e sistemas de um lado, e sistemas e redes de outro, podemos utilizar o caso da empresa israelense Mobileye.  A empresa é líder global no desenvolvimento de tecnologia de visão para Advanced Driver Assistance Systems (ADAS) e para direção autônoma de veículos.  Um de seus mais importantes produtos oferece poder de processamento para dar suporte a uma ampla suíte de funções ADAS baseada em um único sensor câmera. 

Por ser um importante componente na composição dos automóveis autônomos do futuro, a Mobileye foi recentemente comprada pela Intel por US$ 15,3 bilhões. Logo, a Intel uniu sua alta performance computacional e sua expertise em conectividade com a expertise da Mobileye em computação visual para criar soluções de direção autônoma de veículos a partir da cloud, passando pela rede até chegar ao automóvel.

Outro exemplo representativo é aquele que a empresa pernambucana In Loco Media fez e faz. Seus jovens empreendedores estão fazendo o que chamamos de "economia integradora e recombinante" (ou tecnologia integradora e recombinante). Para eles desenvolverem a tecnologia deles (de localização indoor) eles integraram e recombinaram três tecnologias existentes: 1- Wifi; 2- Acelerômetro dos smartphones; e, 3- A bússola dos smartphones.  Ou seja, de forma genial, eles dominaram tecnologias internacionais existentes e, de forma inovadora, desenvolveram a deles.

As ZEITs serão fundamentais para que o país possa importar componentes científico-tecnológicos desenvolvidos fora do país, sem as atuais custosas barreiras alfandegárias, e, em seguida, integrar/recombinar tecnologias, e, finalmente, exportar (de forma integrada e recombinada) tecnologia, inovações e modelos de negócios tanto para fora do país quanto para diferentes regiões do território nacional.  Isso diminuiria enormemente os custos tanto de integração/recombinação quanto os custos de transação de novas tecnologias, inovações e modelos de negócios.

A fundação destas ZEITs não seria algo muito difícil, em termos de políticas públicas. Bastaria que nossas autoridades governamentais compreendessem que o novo padrão da competição global passa pelas novas etapas importantes de agregação de valor na produção de novos bens e serviços (ver Figura 2), e, institucionalmente, criassem estas ZEITs, o que poderia acontecer nas nossas atuais Zonas de Processamento de Exportação. No entanto, é importante assinalar que uma coisa é a criação institucional das ZEITs, outra é a sua efetivação.  Para que uma ZEIT seja operacionalmente efetiva e relevante, ela deve observar certos critérios; e o mais importante deles é que ela seja implantada num ambiente onde já existam criatividade e espírito empreendedor.

Temos a convicção que estes são os primeiros passos na definição de “Uma Nova Estratégia de Desenvolvimento de Tecnologia, Inovação e Modelos de Negócios Para o Brasil”. Nosso papel é cada vez mais ampliar esta narrativa, ampliando a rede de parceiros que acreditem nesse novo caminho!

Se sua empresa, organização ou instituição, deseja saber mais sobre Uma Nova Estratégia de Desenvolvimento de Tecnologia, Inovação e Modelos de Negócios Para o Brasil, não hesite em nos contatar!

 

l14F1

l14F2

 

banner

Creativante 2013 - Todos os direitos reservados