Redefinindo o Papel do Brasil nas Cadeias Globais de Valor de Tecnologia de Informação e Comunicação

26 17O título acima é o título de um trabalho publicado em junho de 2016 por Ezequiel Zylberberg, Doctoral Candidate Saïd School of Business, University of Oxford, pelo MIT Industrial Performance Center – IPC, do Massachusetts Institute of Technology dos EUA. O resumo deste trabalho pode ser reproduzido da seguinte maneira.

O setor de tecnologia de informação e comunicação – TICs do Brasil é um produto de uma longa história da industrialização via substituição de importações que começou nos anos 1970 e continuou até os dias atuais.  Enquanto o regime de política industrial se afastou da meta de construir uma indústria nacional, verticalmente integrada, vestígios das aspirações passadas permanecem profundamente incorporadas na estrutura industrial do país até hoje.

O Brasil participa em quase todos os segmentos da agora dispersa e fragmentada cadeia global de valor (GVC- Global Value Chain, em inglês), do projeto de semicondutores e fabricação, até a montagem final e logística reversa.

No entanto, seu amplo engajamento tem sido raso – o país ainda tem que adentrar em funções mais complexas ou de maior valor adicionado em qualquer segmento desta indústria global.  Seja em hardware, software ou serviços, a indústria depende fortemente de importações, e a maior parte da produção doméstica é dirigida em direção ao mercado local.  Décadas de crescimento insular, possibilitados pelo amplo e dinâmico mercado do país, embotou a motivação para as empresas locais competirem internacionalmente ao investirem em inovação.  Mas a relativamente recente desagregação de funções corporativas chave como P&D, apresenta-se ao Brasil como uma oportunidade única de redefinir seu papel no setor.  O país tem buscado há algum tempo encorajar o gasto local em P&D através da Lei de Informática, e tem recentemente redobrado os esforços para atrair empresas multinacionais para estabelecerem seus centros de P&D no seu território. 

Logo, o trabalho do Zylberberg explora como o Brasil deve redefinir seu papel nas GVCs de TICs, alavancando organizações de pesquisa e desenvolvimento, como os recentemente estabelecidos Institutos SENAI de Inovação (ISIs) para encorajar inovação e engajamento global.

O que podemos afirmar de forma breve, é que este trabalho tem importantes méritos mas apresenta algumas limitações.  Do ponto de vista dos méritos, o autor faz uma interessante descrição dos atores chave do setor privado nas GVCs de TICs (particularmente a GVC de eletrônicos).  Mesmo que se valha de um trabalho anterior do Prof. Timothy J. Sturgeon (também do MIT Industrial Performance Center), não deixa de ser relevante a abordagem que o autor empreende. 

Em seguida o autor faz uma análise do que tem representado os movimentos recentes na gestão global de P&D no setor de TICs, para depois tratar do atual papel do Brasil nas GVCs de TICs. Seu próximo passo foi descrever o contexto institucional que se estruturou ao redor do setor de TICs no Brasil. Finalmente, o autor trata das implicações para os recentemente criados Institutos SENAI de Inovação, sugerindo duas estratégias para os mesmos.

Do ponto de vista das limitações, é possível apontar que o autor parte de uma premissa que merece alguns reparos. Segundo ele, ao contrário da Coréia do Sul e Taiwan, o Brasil nunca teve sucesso em mudar do modelo de industrialização via substituição de importações (ISI- Import Substitution Industrialization, em inglês) para um modelo de industrialização baseado em exportações (EOI- Export-Oriented Industrialization, em inglês). Tal premissa é parcialmente verdadeira, principalmente para os segmentos da indústria classificados como Scale-Intensive (Intensivos em Escala, tais como química, farmacêuticos, refino de petróleo, borracha e produtos plásticos, ferro e aço), e os de Science-Engineering-and-Knowledge-Based (Baseados em Ciência-Engenharia e Conhecimento, tais como maquinaria e equipamentos, maquinaria eletrônica, material eletrônico, equipamento computacional e produtos ópticos, e outros veículos) têm balança comercial crescentemente deficitária.

No entanto, o país além de ter vantagens comparativas em recursos naturais incomparáveis no globo, vem construindo importantes vantagens competitivas em setores chamados de Manufacturing Products Natural-Resources-Based (Produtos Manufaturados Baseados em Recursos Naturais, tais como extração mineral, extração de petróleo e gás natural, alimentos, bebidas e tabaco, produtos de lã, papel e celulose e produtos de papel, metais não ferrosos, além de outros), além dos chamados Labour-Intensive (Intensivos em Trabalho, tais como têxteis, vestuário, manufatura de sapatos e de couros, produtos de metais, e móveis industriais e domésticos), e aqueles do moderno Agribusiness (agronegócio, como produtos agrícolas, de pesca e produtos florestais), setores com crescentes superávits na balança comercial.

Outro aspecto importante é que ao longo dos últimos anos o Brasil foi capaz de organizar importantes ecossistemas de inovação em seu território (tais como o Porto Digital em Pernambuco), ecossistemas esses que inexistiam quando os pioneiros do setor de informática do país imaginavam construir uma “indústria nacional, verticalmente integrada”; ou seja, uma tarefa quase impossível de se realizar se um país não detém competitividade nos seus insumos essenciais (como uma qualificada e empreendedora força de trabalho) para conexão com as GVCs.

Existem outros aspectos a serem considerados, mas isso nem de longe retira o mérito da importante contribuição que Zylberberg traz para o debate atual de repensar o setor de informática brasileiro, particularmente no momento em que vem sofrendo críticas e contenciosos da OMC (ver newsletters de 18-06-2017, 25-06-2017, e 02-07-2017).

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre o Brasil nas GVCs de TICs, fique a vontade para nos contatar!

 

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