A falha das médias

28 17Essa história vem do livro intitulado “The End of Average” (O Fim da Média) (Harper Collins, 2016), de Todd Rose.  O autor apresentou um TEDx talk sobre médias, e ele é o líder proponente de um campo interdisciplinar chamado “The Science of the Individual” (A Ciência do Indivíduo). E tal história foi encontrada pelo editor desta newsletter no livro “Microservice Architecture” (Arquitetura de Microserviços).

Nos anos 1950, a Força Aérea dos EUA lançou um estudo sobre as causas dos erros de pilotos, e uma parte do estudo focou nas dimensões físicas dos pilotos e dos sistemas de controle de seus cockpits (cabines). Os cockpits tinham sido projetados inicialmente baseados em médias físicas assumidas dos pilotos, e foi assumido que os pilotos tinham crescido ao longo do tempo, e que o projeto necessitaria ser aperfeiçoado.

Caiu para o Tenente Gilbert Daniels, de 23 anos, liderar um duro processo de cuidadosamente medir 4.000 pilotos em 140 diferentes dimensões físicas e analisar os resultados.  No processo, Daniels teve a ideia de ir além do plano inicial para computar as médias de todas as 140 dimensões, de forma a construir o que os militares consideravam o “piloto médio”.  Daniels queria conhecer somente quantos dos 4.000 pilotos ele tinha medido estavam na “média”, i. e., quantos encaixavam nos valores computados que os militares estavam desejando usar para redesenhar os cockpits dos aviões.

Ao tomar somente 10 das muitas dimensões que ele estava trabalhando (altura, peitoral, comprimento da manga, etc), Daniels construiu o que ele definiu como sendo o piloto médio.  Daniels também estabeleceu que qualquer um que caísse no intervalo de 30% do número alvo para uma dimensão, seria incluído na sua lista de pilotos médios. Por exemplo, a média da altura foi de 1,75 m. Logo, para Daniels, qualquer um que medisse 1,70 m até 1,80 m seria contado como média de altura.  Daniels procedeu até checar cada um dos 4.000 sujeitos para descobrir somente quantos deles cairiam dentro da média de cada dimensão.  Ele estava procurando por todos os pilotos que pudessem ser considerados completamente na média.  Para a surpresa de todos, o total contado foi zero.  Não havia um único piloto que caísse no interior de 30% da média para todas as dez dimensões.  Como Daniels escreveu em seu artigo intitulado The “Average Man”? :

“Como uma representação abstrata de um mítico indivíduo quase representativo de uma dada população, o homem médio é conveniente para compreender em nossas mentes. Infelizmente ele não existe”.

Depreende-se que não existe essa coisa de um piloto médio.  Projetar um cockpit para piloto médio resulta em uma configuração de cockpit que não se adapta a ninguém.  Intuitivamente, isso tem sentido para a maioria de nós.  Enquanto média são boas quando buscando por tendências em um grupo, o “perfil” resultante deste grupo não existe na vida real.  Médias nos ajudam em tendências ou grandes tiradas, mas não descrevem qualquer exemplo real existente.

A razão para esta diferença entre os pilotos reais e o piloto médio pode ser sumarizada pelo que Rose chama de “the principle of jaggedness” (princípio da deformação).  Quando medindo indivíduos em um conjunto multidimensional de critérios (altura, extensão do braço, tamanho da mão, e por aí vai), há tantas combinações variantes que nenhum indivíduo é provável de exibir o valor médio de todas dimensões.  E projetar para um indivíduo que exiba todas aquelas médias irá resultar em um encaixe pobre de cada pessoa real.

A solução que eventualmente funcionou para a Força Aérea dos EUA foi incorporar variabilidade no projeto dos cockpits dos aviões.  Por exemplo, criar um assento ajustável, a habilidade de modificar a inclinação e comprimento da coluna da direção, e mover o pedal para frente e para trás, são exemplos de projeto de variabilidade.  Isso funciona porque as dimensões exatas de qualquer único elemento no projeto não são tão importantes quanto a habilidade de identificar as dimensões importantes que necessitam dar suporte à variabilidade.

Essa noção de falha das médias é importante na Ciência Econômica (bem como em outras) porque até recentemente muitos trabalhos assumidos como sendo em relação aos indivíduos, são na realidade estudos de grupos, e não de indivíduos. Ou seja, precisamos adotar metodologias que efetivamente desconsiderem as médias e trabalhem com o efetivo entendimento dos indivíduos como unidade de análise!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre a Ciência do Individual, fique a vontade para nos contatar!

 

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