O futuro do trabalho sob a ótica do “Julgamento de Thamus”

32 17O debate recente sobre o futuro do trabalho tem se pautado essencialmente pelo papel dos avanços da tecnologia na substituição dos “indefesos” humanos por máquinas inteligentes. Ou seja, mais uma vez na história a tecnologia se encontra na berlinda. 

 

 

Um dos autores contemporâneos que examinaram quando, como e porque a tecnologia se tornou um “inimigo particularmente perigoso”, foi Neil Postman em seu livro intitulado “Technopoly: The Surrender of Culture to Technology” (Tecnopólio: A Rendição da Cultura à Tecnologia), de 1992.  Vejamos à frente como Postman busca trazer, no início do livro, a lenda do “Julgamento de Thamus” para defender seu argumento:

 

 

“Você encontrará em Fedro, de Platão, uma história sobre Thamus, o rei de uma grande cidade do Alto Egito. Para pessoas como nós, inclinadas (na frase de Thoreau) a serem ferramentas de nossas ferramentas, poucas lendas são mais instrutivas do que esta. A estória, como Sócrates contou para seu amigo Fedro, desenrolou-se da seguinte maneira: um dia, Thamus recebeu o deus Theuth, que foi o inventor de muitas coisas, inclusive do número, do cálculo, da geometria, da astronomia e da escrita. Theuth exibiu suas invenções para o rei Thamus, afirmando que elas deviam ser amplamente conhecidas e disponíveis aos egípcios. Sócrates continua:

 

Thamus indagou sobre o uso de cada uma delas, e, enquanto Theuth discorria sobre elas, expressava aprovação ou desaprovação, à medida que julgasse as afirmações de Theuth bem ou mal fundamentadas. Levaria tempo demais repassar tudo o que se relatou sobre o que Thamus disse a favor ou contra cada invenção de Theuth. Mas quando chegou na escrita, Theuth declarou: “Aqui está uma realização, meu senhor rei, que irá aperfeiçoar tanto a sabedoria como a memória dos egípcios. Eu descobri uma receita segura para a memória e para a sabedoria”. Com isso, Thamus replicou: “Theuth, meu exemplo de inventor, o descobridor de uma arte não é o melhor juiz para avaliar o bem ou dano que ela causará naqueles que a pratiquem. Portanto, você, que é o pai da escrita, por afeição a seu rebento, atribuiu-lhe o oposto de sua verdadeira função. Aqueles que a adquirirem vão parar de exercitar a memória e se tornarão esquecidos; confiarão na escrita para trazer coisas à sua lembrança por sinais externos, em vez de fazê-lo por meio de seus próprios recursos internos. O que você descobriu é a receita para a recordação, não para a memória. E quanto à sabedoria, seus discípulos terão a reputação dela sem a realidade, vão receber uma quantidade de informação sem a instrução adequada, e, como consequência, serão vistos como muito instruídos, quando na maior parte serão bastante ignorantes. E como estarão supridos com o conceito de sabedoria, e não com a sabedoria verdadeira, serão um fardo para a sociedade”.

 

Postman começa seu livro com esta lenda porque, como ele próprio afirma, na resposta de Thamus há vários sólidos princípios com os quais podemos começar a aprender a pensar com sábia circunspecção sobre uma sociedade tecnológica. Na verdade, há inclusive um erro no julgamento de Thamus, com o qual também podemos aprender algo importante. O erro não está em sua afirmação de que a escrita irá prejudicar a memória e criar a falsa sabedoria. É demonstrável que a escrita tem tido esse efeito. O erro de Thamus está em sua crença de que a escrita será um fardo para a sociedade, e nada mais que um fardo. Com toda a sua sabedoria, ele falha ao não imaginar quais poderiam ser os benefícios da escrita, que, como sabemos, têm sido consideráveis. Podemos aprender com isso que é um erro supor que qualquer inovação tecnológica tem um efeito unilateral apenas. Toda tecnologia tanto é um fardo como uma bênção; não uma coisa ou outra, mas sim isto e aquilo.

 

Nada poderia ser mais óbvio, é claro, especialmente para aqueles que pensaram mais de dois minutos sobre a questão. Não obstante, atualmente estamos cercados por multidões de zelosos Theuths, profetas de um olho só que veem apenas o que as novas tecnologias podem fazer e são incapazes de imaginar o que elas irão desfazer. Podemos chamar essas pessoas de Tecnófilos. Elas olham para a tecnologia como um amante para a amada, vendo-a sem defeitos e não sentindo apreensão alguma quanto ao futuro. Por conseguinte, elas são perigosas, e devem ser abordadas com cuidado. Por outro lado, alguns profetas de um olho só, como eu (ou então eu sou acusado), estão inclinados a falar apenas de fardos (ao modo de Thamus), e se calam sobre as oportunidades que as novas tecnologias tornam possíveis. Os Tecnófilos precisam falar por si, e o fazem por toda a parte.

 

A defesa de Postman é a de que, às vezes, é preciso uma voz discordante para moderar a gritaria feita pelas multidões entusiásticas. Se alguém erra, é melhor errar pelo lado do ceticismo de Thamus. Mas, ainda assim, é um erro. E eu (Postman) poderia observar que, com exceção de seu julgamento sobre a escrita, Thamus não repete o erro. Você deve ter notado ao reler a lenda que ele dá argumentos a favor e contra cada invenção de Theuth. É, pois, inevitável que cada cultura precise negociar com a tecnologia, fazendo-o de maneira inteligente ou não. Chega-se a um acordo no qual a tecnologia dá e toma. O sábio sabe muito bem disso e raras vezes se enche de satisfação...

 

Um sábio precisa começar sua crítica à tecnologia reconhecendo seus sucessos. Se o rei Thamus fosse tão sábio como demonstrava sua reputação, não teria esquecido de incluir em seu julgamento uma profecia sobre os poderes que a escrita ampliaria. Há um cálculo da mudança tecnológica que requer uma medida de imparcialidade.

 

Chega de erro de omissão de Thamus, continua Postman. Há outra omissão digna de nota, mas que não é um erro. Thamus simplesmente aceita como certo – e, por conseguinte, não acha necessário dizer – que a escrita não é uma tecnologia neutra, cujo bem ou dano depende do uso que se faça dela. Ele sabe que os usos de qualquer tecnologia são amplamente determinados pela estrutura da tecnologia em si, isto é, que sua função segue a sua forma.

 

Esse é o motivo pelo qual Thamus não está preocupado com o que as pessoas vão escrever; ele está preocupado com o fato de que as pessoas irão escrever. É absurdo imaginar Thamus avisando, à maneira do Tecnófilo-padrão de hoje, que os malefícios da escrita poderiam ser minimizados, desde que ela fosse usada apenas para a produção de certos tipos de textos (digamos que para a literatura dramática, mas não para a história ou para a filosofia). Ele veria tal aviso como uma extrema ingenuidade. Imagino (Postman) que ele permitiria que se impedisse uma tecnologia de entrar em uma cultura. Mas podemos aprender o seguinte com Thamus: uma vez que uma tecnologia é aceita, ela atua de imediato; faz o que está destinada a fazer. Nossa tarefa é compreender o que é esse desígnio; vale dizer que, quando aceitamos uma tecnologia nova, devemos fazê-lo com os olhos bem abertos.

 

Em resumo, antes de prejulgarmos se tal ou qual tecnologia (ou avanço tecnológico) irá afetar o trabalho humano de forma negativa, seria bom examinarmos igualmente quais são os efetivos benefícios trazidos por essa mesma tecnologia, muitos dos quais se manifestam na ampliação das capacidades humanas.

 

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre o futuro do trabalho, fique a vontade para nos contatar!

 

(*) Devemos o encontro do tema do Julgamento de Thamus ao blog http://crismnetto.wordpress.com.

 

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