Por que Microsoft comprou GitHub?

19 18A semana que passou foi marcada por um fato que repercutiu muito mundo afora no contexto do mercado global de tecnologias de informação e comunicação: a compra do GitHub (*) pela Microsoft por US$ 7,5 bilhões. Um conjunto de argumentos emergiu para tentar explicar as razões dessa compra.

Dan Frommer, em post publicado no site Recode, no dia 04/06/2018, argumentou que com o GitHub a Microsoft estaria comprando uma parte crucial do ecossistema de software. Em um post para o Wall Street Journal no mesmo dia 04/06/2018, Dan Gallagher defendia que o acordo com o GitHub representava uma clara quebra da Microsoft com seu passado, ao mudar seu enfoque de se apoiar em sistemas proprietários para um baseado em sistemas de código open-source.

Em artigo detalhado no Financial Times, Richard Waters e Hannah Kuchler em San Francisco e Arash Massoudi em Londres, relataram no mesmo dia 04/06/2018 que desde que Satya Nadella assumiu a liderança da Microsoft, há mais de quatro anos, uma parte central de sua estratégia tem sido tentar atrair programadores de código aberto.

Em artigo publicado na Harvard Business Review em 06/06/2018, Paul V. Weinstein argumentou, fazendo uma distinção entre duas formas de se criar valor para os acionistas de uma companhia (o valor financeiro e o valor estratégico), que a negociação em apreço representa a compra (pela Microsoft) do acesso a uma legião de desenvolvedores (algo em torno de 28 milhões) que usam, em bases diárias, o repositório de códigos do GitHub (o valor estratégico da companhia), de forma que eles possam ser guiados para o ambiente de desenvolvimento da Microsoft, onde o dinheiro real é feito.

O que pretendemos argumentar nesta newsletter é que essa compra é apenas mais um passo na execução da estratégia definida por Satya Nadella, em consonância com a missão que ele reestabeleceu para a Microsoft: “empoderar cada pessoa e cada organização no planeta para atingir mais”. E a estratégia definida por ele está claramente apresentada em seu livro intitulado “Hit Refresh: The Quest to Rediscover Microsoft´s Soul and Imagine a Better Future for Everyone”, que resenhamos aqui na newsletter de 05/11/2017.

Mas expressar este fato desta forma ainda não explicita o fundamento econômico subjacente à compra. Na nossa opinião a compra é, e deve ser explicada, no contexto de complementaridade, um importante conceito na análise organizacional, já que ele oferece um enfoque para explicar padrões de práticas organizacionais, como elas se encaixam com estratégias de negócio particulares, e porque diferentes organizações escolhem diferentes padrões e estratégias.

A análise das complementaridades pode oferecer insights sobre a dinâmica organizacional. Por exemplo, mesmo que executivos seniors tenham uma clara visão de uma nova estratégia para uma companhia, gerenciar a mudança pode ser difícil ou impossível. E por que a mudança organizacional é tão difícil? As complementaridades podem prover parte da resposta.

Segundo Brynjolfsson e Milgrom (2013), quando muitas complementaridades entre práticas existem em um sistema estabelecido, mas as práticas do sistema estabelecido e aquelas do novo entram em conflito, logo é provável que a transição será difícil, especialmente quando decisões são descentralizadas. Por causa das complementaridades, mudar somente uma prática, ou um pequeno conjunto delas, é provável que reduza o desempenho geral. A conclusão natural é que a organização deveria mudar todas as práticas no novo sistema simultaneamente. No entanto, fazer essas mudanças de uma vez pode ser difícil ou inviável por, pelo menos três razões.

Primeiro, há um problema básico de coordenação. Atores que controlam diferentes práticas de negócio, ativos, mercados, e estratégias, incluindo algumas que devem estar fora do controle direto da empresa, necessitam de coordenação no escopo, tempo, e conteúdo da mudança. Em segundo lugar, organizações inevitavelmente consistem não somente de numerosas práticas bem definidas e escolhas, mas também de muitas que são implícitas ou pobremente definidas. E terceiro, mesmo se um suficiente conjunto de mudanças relevantes possa ser identificado e definido, e todos os relevantes atores concordem com um plano de ação, o timing da mudança pode apresentar dificuldades.

O que Nadella está definindo, finalmente, é a orquestração de complementaridades que venham a compor os alicerces da missão de transformar a Microsoft naquilo que ele visualizou ao longo de sua trajetória na empresa, e, de modo particular, a partir do momento em que passou a liderá-la. E pelos resultados financeiros e operacionais que ele vem alcançando, parece que o previsto está sendo competentemente realizado!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre complementaridades nas organizações, fique à vontade para nos contatar!

 

(*) GitHub é uma plataforma de hospedagem de código-fonte com controle de versão usando o Git. Ele permite que programadores, utilitários ou qualquer usuário cadastrado na plataforma contribuam em projetos privados e/ou Open Source de qualquer lugar do mundo. GitHub é amplamente utilizado por programadores para divulgação de seus trabalhos ou para que outros programadores contribuam com o projeto, além de promover fácil comunicação através de recursos que relatam problemas ou mesclam repositórios remotos (issues, pull request).

Brynjolfsson, Erik and Paul Milgrom (2013). Complementarity in organizations. In, The Handbook of Organizational Economics. Edited by Robert Gibbons and John Roberts. Princeton University Press.

 

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