O Setor de TICs de Pernambuco é um Ecossistema Empreendedor em Transição?

28 18Na newsletter da semana passada começamos a testar a hipótese de que o setor de TICs de Pernambuco é um “ecossistema empreendedor em transição para ser um hub internacional de inovação”. Mas afinal, o que é um ecossistema empreendedor, e o que é um hub internacional de inovação?

De forma a defender nosso argumento, iniciamos com um relato histórico do desenvolvimento/evolução deste setor, classificando-o em 05 (cinco) fases, a saber: I) Primeira Fase: De necessidades governamentais ao pioneirismo empreendedor (fase já apresentada); II) Segunda Fase: A oferta de capital humano especializado (o Departamento de Informática- DI, o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife-CESAR e o Centro de Informática- CIn da UFPE); III) Terceira Fase: Governo Estadual assume papel estratégico para as TICs (a emergência do Porto Digital e da Institucionalização da Política Pública de Informática); IV) Quarta Fase: À procura de maior espaço em economias em transformações produtivas (a do Brasil, a do Nordeste e a de Pernambuco); e, V) Quinta Fase (em gestação): De um ecossistema empreendedor para um “Hub Internacional de Inovação”.

Hoje apresentamos um breve relato da Segunda e da Terceira fases.

Apesar da criação do Departamento de Informática ter se estabelecido no final da década de 70 e início da década de 80 (marcadamente em 1981), o verdadeiro amplificador do que viria a acontecer anos à frente (com o aumento da influência deste departamento no domínio econômico da realidade pernambucana), foi a decisão de criar programas de pós-graduação de qualidade nacional e internacional. Sendo assim, em 1975 se iniciara o Curso de Mestrado em Ciência da Computação, e em 1992 foi iniciado o Programa de Doutorado na mesma área.

Estes programas foram fundamentais para a definição do que aqui se pode denominar a transição para a Segunda Fase do “Ecossistema de TICs” de Pernambuco. Como a Primeira Fase se caracterizou pelo uso e disseminação de tecnologias desenvolvidas no mercado externo, sendo estas baseadas em desenvolvimentos científicos (e capital humano qualificado) das principais matrizes da economia mundial, a Segunda Fase começou a se estruturar a partir do reconhecimento (por parte de alguns de seus líderes, principalmente acadêmicos ligados à UFPE) de que tanto uma base científica de competência internacional (apoiada em Mestres e Doutores formados no País, e no Estado), quanto um segmento de mercado interno poderiam ser encontrados a partir daqui, com centros de excelência próprios (como o DI estava se tornando) e com empresas de base tecnológica locais.

Durante os anos 80, que coincidiu com uma etapa de baixo desenvolvimento econômico e alta inflação (que ficou conhecida na história como “a década perdida”), o setor de informática brasileiro conviveu com um período da chamada “reserva de mercado”, quando as autoridades públicas nacionais optaram por fechar o mercado brasileiro à indústria mundial do setor de TIC. E foi durante esta década onde se verificou a transição de fases acima apontada.

De um departamento pequeno, com apenas três professores PhDs em 1981, o DI passou a se constituir num dos mais dinâmicos departamentos de informática do país, formando toda uma nova geração de profissionais altamente qualificados que passaram a desenvolver uma nova cultura na indústria de TICs local.

Durante a década de 90 pelo menos três fatores contribuíram para o que aqui se poderia denominar de avanço recente do “Ecossistema de TICs” de Pernambuco, os quais foram fundamentais para a emergência do Parque Tecnológico do Porto Digital, no ano 2000. Em primeiro lugar, o país passou a conviver com uma abertura e liberalização econômicas, onde medidas tais como reservas de mercado (como acontecia com a informática) perderam apelo em termos de política pública.

Em segundo lugar, a área de informática passou a contar com uma atenção diferenciada das autoridades federais, tendo como premissa a questão da maior integração aos mercados internacionais. No âmbito da Secretaria de Política de Informática Automação- SEPIN, do Ministério da Ciência e Tecnologia- MCT, três novos programas institucionais surgiram ao lado da Nova Lei de Informática(a Lei 8248/91, de 1991, que dava incentivos fiscais às empresas que investissem na Pesquisa e Desenvolvimento- P&D da TIC nacional), e ganharam visibilidade no território nacional como indutores de uma nova etapa da informática brasileira: a Rede Nacional de Pesquisa- RNP(embrião do que viria a ser a partir de 1995 a Internet no Brasil), o Programa Brasileiro de Software para Exportação - SOFTEX 2000, e o Programa Temático Multi- Institucional em Ciência da Computação- PROTEM-CC.

Em Pernambuco, a RNP instalou seu Ponto-de-Presença (POP) no Instituto Tecnológico de Pernambuco- ITEP em 1990. O Programa SOFTEX 2000 foi instalado oficialmente no Recife em 1993, num espaço alugado à IBM (em seu antigo prédio situado na Av. Agamenon Magalhães), mas logo depois passou a receber apoio da EMPREL e de entidades representativas do setor, tais como a Sociedade de Usuários de Informática e Telecomunicações de Pernambuco- SUCESU-PE (criada em 1965) e a Associação das Empresas Brasileiras de Software e Serviços de Informática- ASSESPRO (criada em 1979). E o PROTEM-CC, adotado pela comunidade acadêmica da computação nacional, passou a operar a partir de 1993, com uma forte vinculação à UFPE, a partir do DI.

O terceiro fator foi a criação, em 1996, do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife- CESAR, ligado ao DI da UFPE, e mais à frente, em 1999, o Centro de Informática- CIn da UFPE. O CESAR surgiu como uma resposta do DI ao desafio de se criar uma intervenção no domínio econômico local para geração de novas oportunidades para “o desenvolvimento de software de Pernambuco para o Mundo”. Como uma empresa sem fins lucrativos, vinculada ao DI-UFPE, a principal missão do CESAR era realizar a transferência auto-sustentada de conhecimento em tecnologias da informação entre a sociedade e a universidade.

O DI, o CESAR e o CIn foram fundamentais tanto para a criação de um novo ambiente de desenvolvimento de novas TICs a partir de Pernambuco, quanto para a atração de um novo perfil de empresas multinacionais deste setor à busca de uma competência diferenciada neste segmento econômico. Facilitada pela existência da nova Lei de Informática, empresas tais como a Motorola, Sun, Ericsson, Nokia, Samsung, dentre tantas outras, passaram a perceber que em Recife poderiam encontrar capital humano e P&D necessários aos seus processos produtivos e cadeias de valor.

Ao lado de instituições como o CESAR e o CIn, desde a década de 80 foram se desenvolvendo em Pernambuco vários novos cursos relacionados às tecnologias da informação e comunicação (tanto universitários quanto técnicos), tais como o curso em Ciência da Computação da Universidade Católica de Pernambuco- UNICAP (em 1986), e seu curso de Sistema de Informação (de 2005), além daqueles da Universidade de Pernambuco- UPE, e de mais dezenas de instituições sediadas na Região Metropolitana do Recife que vêm contribuindo para a formação de capital humano do ecossistema de TICs do Estado.

A Terceira Fase do “Ecossistema de TICs” de Pernambuco pode ser caracterizada pela emergência do parque tecnológico denominado Porto Digital, bem como pela estruturação da Primeira Política Pública institucionalizada para este segmento econômico no Estado.

Em julho do ano de 2000 foi lançado o “Projeto Porto Digital”. Este projeto foi uma iniciativa da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado de Pernambuco- SECTMA ao cumprir uma Política Estadual de Ciência e Tecnologia que foi idealizada e implementada (pelas organizações da SECTMA, como a FACEPE- Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia e o ITEP- Instituto Tecnológico de Pernambuco) entre os anos de 1999 a 2006.

O Governo do Estado de Pernambuco à época investiu na visão de que Recife, em função da sua vocação para formação de capital humano e por sua base empresarial dinâmica, tinha o potencial para ser o principal polo de atração de empresas e investimentos em TICs do Nordeste. Por outro lado, o Bairro do Recife, na parte mais antiga da cidade, aliava um patrimônio histórico valioso diversificado a uma infraestrutura urbana pensada como adequada à instalação de empresas de base tecnológica.

Portanto, para garantir a existência dos elementos necessários para a atração de novos negócios para o Bairro do Recife, o Governo do Estado decidiu incluir na sua política de ciência e tecnologia uma ação dirigida para a consolidação de um cluster de classe mundial em TICs. Desta forma, lançou o Projeto Porto Digital (através de uma nova organização social, denominada Núcleo de Gestão do Porto Digital- NGPD, em contrato social com a SECTMA), cuja missão era a “estruturação e gestão sustentável de um ambiente de negócios capaz de criar e consolidar empreendimentos de classe mundial em TICs através da interação e cooperação entre universidades, empresas, organizações não governamentais e governamentais no Estado de Pernambuco” (é fundamental recordar que esta ação representou um investimento inferior a R$ 30.000.000,00 – trinta milhões de reais, recursos esses oriundos da privatização da companhia estadual de distribuição de energia- CELPE).

Durante os anos de 2003 e 2006 foram também criadas as bases jurídico-institucionais que definiram pela primeira vez no Estado uma política pública voltada para o setor de TICs. Em 02 de janeiro de 2006 foi criado o SEIG - Sistema Estadual de Informática de Governo, através da Lei 12.985/2006, vinculado à Secretaria de Administração, que estabelece, além de outras providências, a formulação da política pública da informática de governo e o planejamento, a coordenação, o controle e a execução das atividades a ela relacionadas, no âmbito da administração direta e indireta do Poder Executivo. O SEIG desenvolveu como sua estrutura de funcionamento o Núcleo de Gestão do Governo, o Comitê de Informática, a ATI – Agência Estadual de Tecnologia da Informação e os Núcleos Setoriais de Informática nos órgãos do governo.

Como um importante derivado da emergência das duas ações acima descritas, o governo do Estado, visando suprir as dificuldades de gestão emanadas da descentralização dos serviços de transmissão de dados, o que culminava entre outras coisas com precificações distintas para cada Órgão do Poder Executivo, links de baixa velocidade e precário acesso à internet, licitou no ano de 2000 a sua primeira Rede Corporativa de Telecomunicações que, no primeiro momento, focava apenas na gestão centralizada dos serviços de dados, a qual recebeu o nome de PE-Digital. Essa contratação, apesar de atingir apenas a rede de dados, já trouxe importantes ganhos ao Estado, reduzindo os custos praticados à época em cerca de 40%, mostrando a vantagem de se contratar em escala, e principalmente de se compartilhar a infraestrutura dos serviços de telecomunicações, os quais são essenciais para uma boa prestação de serviços à sociedade por parte do ente público.

No final de 2005, o governo do Estado licitou uma nova rede de telecomunicações, a qual recebeu o nome de PE-Multidigital, por incorporar à antiga rede de Dados os serviços de Voz e Imagem, sendo este último destinado à videoconferência. O objeto dessa nova contratação (uma Rede de Dados, Voz e Imagem), revolucionou a maneira do Estado de Pernambuco atender ao cidadão, pois, permitiu à implantação de sistemas que facilitaram uma melhor prestação de serviços à sociedade, sendo este fato possível, entre outras coisas, pela interligação dos seus prédios públicos independentemente de onde eles estivessem localizados dentro do Estado.

Na semana que vem finalizaremos esta série de newsletters tratando da evolução do setor de TICs de Pernambuco!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber sobre ecossistemas empreendedores, não hesite em nos contatar!

 

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