De um ecossistema empreendedor a um hub internacional: as TICs de Pernambuco

29 18Nas newsletters dos dias 06/08/2018 e 13/08/2018 iniciamos a defesa da hipótese de que o setor de TICs de Pernambuco é um ecossistema empreendedor em transição para ser um hub internacional de inovação. E para esta defesa, argumentamos que a evolução deste setor obedeceu 5 (cinco) fases, a saber: I) Primeira Fase: De necessidades governamentais ao pioneirismo empreendedor (fase já apresentada); II) Segunda Fase: A oferta de capital humano especializado (o Departamento de Informática- DI, o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife-CESAR e o Centro de Informática- CIn da UFPE); III) Terceira Fase: Governo Estadual assume papel estratégico para as TICs (a emergência do Porto Digital e da Institucionalização da Política Pública de Informática); IV) Quarta Fase: À procura de maior espaço em economias em transformações produtivas (a do Brasil, a do Nordeste e a de Pernambuco); e, V) Quinta Fase (em gestação): De um ecossistema empreendedor para um “Hub Internacional de Inovação”.

Depois de apresentarmos as três fases iniciais, hoje tratamos sobre o que foi a quarta fase, e como percebemos a constituição de sua quinta e nova fase (em gestação).

O intervalo de tempo transcorrido entre os anos de 2007 e 2014, portanto oito anos, foi marcado por profundas transformações nos domínios econômico, social e político no Brasil, com efeitos marcantes na região Nordeste do país, e, em Pernambuco em particular. O Brasil experimentou um ciclo positivo de crescimento iniciado a partir de 2004, quando obteve grandes avanços nos campos social e econômico, resultado de políticas de períodos anteriores (como a abertura comercial, e a estabilização econômica), culminando na ascensão de milhões de pessoas sobre a linha de pobreza, e a queda da taxa de desemprego para patamares históricos.

No entanto, a crise financeira internacional de 2007/8 revelou a fragilidade daquele modelo defendido no Brasil a partir de 2004. Os avanços então observados estiveram relacionados ao aumento do consumo e aos gastos do governo, impondo altos custos para a sociedade brasileira - entre eles o aumento da carga tributária e a manutenção dos investimentos em baixo patamar.

A região Nordeste foi uma das grandes beneficiárias das transformações ocorridas naquele período. No entanto, apesar daquele ciclo positivo de crescimento, o problema regional continuou a existir no país, pois as diferenças permaneceram grandes e a velocidade da convergência (para a média nacional), onde ela existiu, foi insatisfatória. Segundo o economista Gustavo Maia Gomes, os ícones da desigualdade ainda permanecem intactos. Em 1960, primeiro ano de atuação da SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), o Nordeste tinha um PIB per capita igual a 47% do brasileiro; em 2010, a relação entre os dois produtos per capita, do Nordeste e do Brasil, continuava a mesma: 47% (com a crise nacional dos anos 2015, 2016, 2017, avançando por 2018, é bem provável que estes percentuais tenham se mantido).

Pernambuco, dentro do Nordeste, foi um dos estados que mais se beneficiou do ciclo de crescimento acima apontado. Após perder pujança econômica relativa nos cenários nacional e regional (o PIB de Pernambuco representava 4,4% do PIB nacional em 1939; 3,8% em 1949; 3,2% em 1955; 2,9% em 1970; e permaneceu no intervalo de 2,3% e 2,4% entre os anos de 1995 e 2008), a partir de 2009 o Estado de Pernambuco começou a reconquistar dinâmica econômica e social, e em 2015 sua economia estava superando a marca dos 2,5% do PIB nacional (retrocedendo mais uma vez, infelizmente, a partir daí).

A partir dos anos 2007/08/09 Pernambuco passou a vivenciar um forte ciclo de reindustrialização, impulsionado pela convergência de políticas de incentivo governamental nas esferas local, estadual, regional e nacional. Seu crescimento passou a ser apoiado num núcleo dinâmico de expansão diverso daquele verificado no passado, onde as novas atividades industriais (refinaria, petroquímica, automobilística, para citar algumas) baseadas em uso intensivo de capital, passaram a ser “a referência econômica” (importante salientar que estas atividades representaram investimentos bilionários, tanto de natureza pública quanto privada).

Neste meio termo, o “Setor de TICs” do Estado foi praticamente relegado a um “plano menor”. Uma vez que “os setores protagonistas da nova era industrial em Pernambuco dialogam muito pouco com a base industrial prévia existente” (importante afirmação do livro “Pernambuco Desafiado”, TGI/Ceplan/Multivisão, 2014), e se estabeleceram com baixíssimo vínculo com o “ecossistema de TICs” existente (bem como com o restante dos segmentos do setor econômico de serviços historicamente existente), praticamente se cristalizou um “descolamento” da nova política de reindustrialização com os então incumbentes econômicos.

Sendo assim, esta fase se caracteriza como aquela fase em que o “Setor de TICs” de Pernambuco esteve à procura de um maior espaço nas economias em transformações produtivas, como a do Brasil, a do Nordeste, e a do próprio Estado. É fundamental qualificar que o fato deste ecossistema praticamente ter sido relegado a um “plano menor” no Estado, não significou que suas empresas, organizações e instituições ficassem estagnadas. Muito ao contrário, as mesmas partiram para conquistas de oportunidades fora do território pernambucano (ou reforçaram seus prévios laços externos), e algumas fora do país.

E o que se pode dizer da quinta e nova fase do Setor de TICs de Pernambuco? Apesar de ter sido relegado a um “segundo plano” entre os anos de 2007 e 2014 (período este que pode ser estendido para os anos entre 2015 e 2018), este setor foi capaz de criar e expandir os alicerces do que hoje se pode denominar de um “ecossistema empreendedor”. O conceito de ecossistema empreendedor vem se consolidando nas literaturas acadêmica e profissional como sendo uma metáfora mobilizadora nos setores público e privado, construindo pontes entre estes dois setores.

Um modelo sintetizador do conceito é aquele expresso por Erik Stam, da Utrecht University School of Economics, na Holanda (visualizado na Figura 1 à frente) que inclui insights da literatura acadêmica, no entanto, oferece mais profundidade causal a partir de quatro camadas [condições estruturais, condições sistêmicas, outputs e outcomes (outcomes sendo a diferença proporcionada pelos outputs)], incluindo as causações anterior e posterior, e as relações causais entre camadas. A causação anterior revela como as causas fundamentais da criação de valor são mediadas pelas causas intermediárias, enquanto a causação posterior mostra como os outcomes e outputs do sistema ao longo do tempo também se retroalimentam dentro das condições do sistema. As relações causais entre as camadas se referem às interações dos diferentes elementos no interior do ecossistema, e como os diferentes outputs e outcomes do ecossistema devem interagir.

As condições estruturais incluem as condições sociais (instituições formais e culturais) e físicas possibilitando, ou constrangendo, interações humanas. Em adição, acesso a mais ou menos demanda exógena por novos bens e serviços é também de grande importância. As condições sistêmicas são o coração do ecossistema: redes de empreendedores, liderança, finanças, talento, conhecimento novo, e serviços de suporte. A presença desses elementos e a interação entre eles é de crucial relevância para o sucesso do ecossistema. Finalmente, a oferta de serviços de suporte por uma variedade de intermediários pode reduzir substantivamente barreiras à entrada para novos projetos empreendedores, reduzir o tempo para colocar inovações no mercado, e fortalecer a difusão de inovações, como insumos para novas gerações de inovações

De forma resumida, podemos afirmar que o Setor de TICs de Pernambuco, ao longo de vários anos (como foi possível demonstrar nas newsletters dos dias 06/08/2018 e 13/08/2018), conseguiu estruturar os principais elementos das quatro camadas do modelo de ecossistema empreendedor expresso na Figura 1, e vem oferecendo tanto relevantes outputs quanto outcomes para o Estado e para o país como um todo.

No entanto, o que já estamos vivenciando neste ecossistema são os primeiros sinais de que este ecossistema está transicionando para uma nova etapa, a qual vem se firmando através da maturidade das suas empresas, e, particularmente, do avanço do mindset dos seus empreendedores para uma perspectiva de negócios internacionais. Ainda são poucos os exemplos de empresas que estão percebendo que o Brasil representa apenas 3% do PIB mundial, e que as verdadeiras oportunidades estão nos 97% “restantes” da renda global. Mas tal cultura está mudando muito rapidamente!

Mas para que este ecossistema avance no sentido a se tornar um efetivo hub internacional de inovação, alguns ingredientes se fazem necessários, e o editor desta newsletter desenvolveu um conjunto de premissas, programas e projetos que apontam nesta direção, deixando para uma próxima oportunidade a exposição de tal conjunto para o escrutínio público!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre ecossistemas empreendedores, não hesite em nos contatar!

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