O declinante universo das empresas listadas nas Bolsas de Valores: o caso dos EUA

35 18Já há algum tempo nós, evangelistas do empreendedorismo e da inovação, temos pregado sobre o ciclo de financiamento das startups, onde enfatizamos que tal ciclo tradicionalmente se inicia com o capital semente e vai até o IPO – Initial Public Offering, ou seja, a oferta inicial de ações nas bolsas de valores, a partir de onde a empresa se torna aberta ao público (ver newsletter de 11/03/2017).

Este ciclo tradicional parece estar adquirindo uma nova configuração, pelo menos, mais intensamente, no caso da economia dos Estados Unidos. Há hoje menos empresas listadas nas bolsas dos EUA do que há 40 anos. Em 1976, os EUA tinham 4.943 empresas listadas nas bolsas. Em 2016 tinha apenas 3.627. De 1976 a 2016 a população americana aumentou de 219 milhões para 324 milhões, de modo que a economia americana foi de 23 empresas listadas por milhão de habitantes para apenas 11. Estas mudanças são dramáticas e levantam um número de questões: Como foi possível chegar a isso? Por que o universo de empresas listadas nas bolsas diminuiu tanto? Como as empresas listadas mudaram como resultado desta evolução? E o qual é o impacto geral desta mudança dramática na composição das empresas listadas?

Tais questões foram recentemente colocadas por René M. Stulz, que é o Everett D. Reese Chair of Banking and Monetary Economics e Director of the Dice Center for Research in Financial Economics da Ohio State University, em recente artigo para o National Bureau of Economic Research – NBER dos EUA. Aqui nesta newsletter nós já havíamos antecipado outra contribuição do Prof. Stulz na mesma direção (ver newsletter de 11/03/2018).

O fenômeno do declínio do número de empresas listadas é recente, de acordo com o Prof. Stulz (já apontado, inclusive com gráfico, na nossa newsletter de 11/03/2018). Segundo ele, quando as listagens caem, mais empresas delistam (saem das listas) do que novas empresas são listadas. As empresas são listadas quando elas fazem o IPO. As empresas delistam porque elas não atendem aos requisitos (delistagem por causa), quando elas desejam voltar a serem privadas, ou porque elas são adquiridas. O fator que mais contribuiu para a queda nas listagens foi o fato de que houve, nos EUA, um extremamente amplo número de fusões. A delistagem por causa foi a segunda mais importante fator da queda. O Prof. Stulz também aponta que esse fenômeno não é único no mundo.

E como as empresas têm mudado? A natureza do investimento tem mudado para as empresas americanas, à medida que elas investem mais em ativos intangíveis. Consequentemente, os ativos intangíveis se tornaram mais importantes para essas empresas. O aumento no papel dos ativos intangíveis tem dois efeitos importantes. Primeiro, ele faz com que as jovens pequenas empresas fiquem fora das bolsas. Segundo, o fato de que jovens pequenas empresas fiquem fora das bolsas, leva as empresas listadas a se tornarem mais velhas e maiores.

Até o ano 2000, a média anual de gastos de capital das empresas listadas quase nunca foi inferior a 8% dos ativos. De 2002 a 2015, a média anual de gastos de capital das empresas listadas não foi superior a 6%. Enquanto as despesas de capital caíram, os gastos médios com P&D como um percentual dos ativos cresceram consideravelmente. Antes de 2001, os gastos médios com P&D eram sempre menos do que os gastos de capital. De 2002 a 2015, a média do P&D como percentagem dos ativos sempre excedeu a média dos gastos de capital como percentagem dos ativos.

Investimento em intangíveis não cria ativos nos balanços das empresas, além de tornarem os ganhos contábeis menos relevantes. Uma empresa estabelecida com altos intangíveis terá um tempo mais fácil para convencer mercados sobre seu valor econômico. Como resultado, o crescimento da importância dos intangíveis torna menos provável que jovens empresas desejem se juntar às bolsas, e estejam mais inclinadas a buscar financiamento privado ou ser adquirida.

A composição dos ativos dos balanços das corporações também mudou dramaticamente: as empresas nos EUA detêm mais cash (dinheiro) do que estavam acostumadas. A média do cash to asset (dinheiro em relação aos ativos) cresceu de 9.2% em 1975 para 21.6% em 2015. A mudança dramática no investimento em P&D também representa a maior parte da mudança no lado dos ativos nos balanços das corporações. Para entender porque, é importante notar que as participações em cash são particularmente maiores nas empresas de alto P&D, que tendem a ter uma alta volatilidade e pobres garantias para empréstimos.

Dados os ganhos acumulados pelas empresas de mais sucesso e o declínio no número de jovens empresas nas bolsas, talvez não seja surpresa que as empresas americanas listadas estejam retornando ações para investidores, mais do que levantando novas ações a partir deles. Recompras se tornaram mais importantes do que dividendos na segunda metade dos anos 90.

Em resumo, uma nova dinâmica está ocorrendo no universo das empresas listadas em bolsas, e muito disso tem a ver com os novos investimentos em ativos intangíveis como aqueles em P&D. Resta saber como países como o Brasil irão financiar daqui para frente tais investimentos, uma vez que o investimento governamental escasseou e o do mercado de capitais está mudando dramaticamente!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre as mudanças nos mercados de capitais, fique a vontade para nos contatar!

 

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