As pessoas tomam decisões racionalmente ou não?

04 20Nas três primeiras newsletters da Creativante deste ano estivemos tratando de uma nova abordagem da Economia, onde, ao invés postura tradicional (de começar com as instituições existentes e prever os resultados que elas podem gerar), busca-se identificar os resultados que se deseja obter, e, daí, trabalha-se “para trás” para descobrir que instituições gerariam aqueles resultados (que chamamos de Economia Reversa).

A questão subjacente a esta discussão é se as decisões que tomamos são racionais ou não. A teoria tradicional econômica é baseada na suposição/hipótese da racionalidade: ou seja, que as pessoas agem, no melhor que elas podem, para promover seus interesses. Em contraste, a Economia Comportamental (uma nova área da Economia) sustenta que as pessoas agem a partir de “regras comportamentais”, frequentemente com resultados frágeis.

O que tentaremos mostrar aqui, de forma breve, é que, ao contrário de uma “disputa de visões” de escolas econômicas, existe hoje uma proposta de “síntese” dessas formas de pensar, de acordo com a qual as pessoas realmente agem por regras (as quais usualmente funcionam bem), mas que elas podem funcionar pobremente em cenários excepcionais ou criados/desenhados.

De acordo com o Prof. Robert J. Aumann (Prêmio Nobel de Economia de 2005) a hipótese da racionalidade – que pessoas agem para promover seus interesses – está subjacente à maioria das teorias econômicas e à Economia como um todo. A política econômica gira largamente em torno da criação de incentivos para as pessoas agirem como o policy maker (fazedor de política) desejaria; e, agir de acordo com os incentivos, é agir racionalmente!

Por quase um século a hipótese da racionalidade tem sido questionada, ou modificada, de uma forma ou de outra. Herbert Simon (Prêmio Nobel de Economia de 1978) sugeriu a noção de “satisficing”: ou seja, que as pessoas não maximizam, mas somente buscam um aceitável nível de utilidade; e que, também, as pessoas usam “heurística” (*) mais do que calculam um ótimo. Milton Friedman (Prêmio Nobel de Economia de 1976) promulgou a doutrina do “as if” (como se fosse): que as pessoas não otimizam conscientemente, mas somente agem “como se elas fizessem”. Daí surgiu a Economia Comportamental- “Beharioural Economics” - BC: o estudo a irracionalidade sistemática.

Na prática, a “mainstream economics” - ME (a economia predominante) usa modelos matemáticos para estudar como os agentes econômicos (consumidores, produtores, comerciantes, monopolistas, oligopolistas, ...) se comportariam para alcançar seus interesses; a suposição implícita sendo a de que no mundo real, os agentes “deveriam”, de alguma forma, se torna os agentes “fariam”. Em contraste, a EC usa pouco ou nenhuma matemática. Mais que isso, ela usa pesquisas e experimentos de laboratório para estudar diretamente não como as pessoas deveriam se comportar, mas como eles se comportam. Nas pesquisas as pessoas são perguntadas como elas agiriam em certas situações, ou como elas responderiam a certas questões; nos experimentos, é observado como elas agem. Dúzias de heurísticas e “vieses” têm sido identificados: rules of thumb (regras de ouro) que nas pesquisas levam à patentemente respostas incorretas – certamente ilógicas – e nos experimentos levam à patentemente comportamento sub-ótimo.

De toda a forma, a racionalidade permanece o paradigma central da ME. Ao mesmo tempo, o desafio proposto pela EC – que, de fato, as pessoas agem irracionalmente – ainda não tinha sido satisfatoriamente endereçado. A ME e a BE continuam a conviver desconfortavelmente lado a lado, apesar da aparente contradição.

Na próxima newsletter apontaremos como o Prof. Roberty Aumann apresenta sua proposta de “síntese” destas duas formas de encarar a racionalidade!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre o uso da racionalidade nas decisões econômicas, não hesite em nos contatar!

 

(*) Um “atalho mental" usado no pensamento humano para se chegar a resultados e a questões mais complicadas de modo rápido e fácil, mesmo que estes sejam incertos ou incompletos.    

 

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