O Valor de Tudo (The Value of Everything)

23 20Na newsletter da semana passada iniciamos uma breve compilação do que chamamos de “novas teorias do valor” (*). Tentamos atrair a atenção para a existência de dois paradigmas vigentes (o do valor extrínseco e o que alguns denominam, pela falta de um título mais adequado, de valor intrínseco), e indicamos que iríamos resenhar um recente livro sobre valor.

O livro intitula-se “The Value of Everything: Making & Taking in the Global Economy” (O Valor de Tudo: Fazendo & Levando na Economia Global), e foi publicado em 2018 pela Profa. Mariana Mazzucato. A Profa. Mazzucato conquistou projeção internacional a partir do seu livro de 2015 intitulado “The Entrepreneurial State: Debunking Public vs. Private Myths” (O Estado Empreendedor: Desmascarando Mitos Público versus Privado), onde ela tenta “desmascarar” o mito reinante de que o governo é lento e inepto, em contraposição ao “dinâmico” setor privado.

Da mesma forma polêmica que seu livro de 2015 foi recebido, este seu livro de 2018 também vem despertando controvérsias. Polêmicas à parte, neste mais recente livro a Profa. Mazzucato questiona as estórias que nos têm sido ditas sobre quem são os criadores de riqueza no capitalismo contemporâneo, estórias essas sobre quais atividades são produtivas em oposição às improdutivas, e a partir daí, de onde a criação de valor emana. O livro questiona os efeitos que essas estórias estão tendo na habilidade de uns poucos extraírem mais da economia em nome da criação de riqueza.

De forma particular, a autora focaliza sua atenção no setor financeiro da economia. Até os anos 60s, a área de finanças não era amplamente considerada como uma parte “produtiva” da economia. Ela era vista como importante para transferir riqueza existente, e não como criadora de riqueza.

A partir dos anos 70s, no entanto, as coisas passaram a mudar, e hoje a questão, segundo a Profa. Mazzucato, não é somente o tamanho do setor financeiro, e como ele tem ultrapassado o setor não-financeiro da economia (e.g. indústria), mas seu efeito no comportamento do resto da economia, grande parte da qual tem sido “financerizada”.

Para a autora, as operações financeiras e a mentalidade que elas alimentam, percolam a indústria, como pode ser visto quando gerentes escolhem gastar uma grande proporção dos lucros em recompra de ações – que, por seu turno, aumentam os preços das ações e os pagamentos aos top executivos – ao invés de investirem no futuro de longo-prazo dos negócios. Eles chamam isso de criação de valor, mas, assim como no próprio setor financeiro, a realidade é frequentemente o oposto: extração de valor.

No entanto, argumenta a autora, essas estórias de “criação de valor” não se limitam às finanças. E ela aponta para estórias da indústria farmacêutica e para o setor de big techs. Todas essas estórias levaram a autora a formular as seguintes questões: Quem decidiu que tais agentes econômicos são criadores de valor? Qual definição de valor é usada para distinguir criação de valor de extração de valor, ou mesmo, de destruição de valor? Por que nós acreditamos tão rapidamente nessas narrativas do bom versus o mau? Como o valor produzido pelo setor público é medido, e por que ele é tão frequentemente tratado simplesmente como uma mais ineficiente versão do setor privado? E o quê seria se não houvesse evidência dessa estória? E o quê seria se ela somente se apoiasse em ideias profundamente implantadas? Que novas estórias nós devemos contar?

Desta forma, a autora aponta que o propósito do livro é mudar este estado de coisas, e para tanto, ao revigorar o debate sobre o que o valor costumava ser – e, como ela argumenta – ainda deveria estar – no centro do pensamento econômico. Se o valor é definido por preço – fixado pelas supostas forças de oferta e demanda – logo, à medida que a atividade busca um preço, ela é vista como criando valor. Então, se você ganha muito, você deve ser um criador de valor. A autora defende que a forma com a palavra valor é usada na moderna economia tornou mais fácil para as atividades extrativas de valor se mascararem como atividades criadoras de valor. E neste processo a rentabilização (renda não conquistada/ganha) fica confundida com lucros (renda conquistada/ganha); a desigualdade cresce e o investimento na economia real cai. E mais, se nós não pudermos diferenciar criação de valor de extração de valor, fica quase impossível premiar a primeira em relação à segunda. E se a meta é produzir mais crescimento, que é hoje muito mais guiado por inovação (crescimento inteligente), mais inclusivo e sustentável, nós precisamos entender melhor sobre valor para podermos nos dirigir.

O livro está subdividido em nove capítulo além do Prefácio e da Introdução. Para os objetivos desta newsletter, é importante destacar que a essência do argumento da autora se encontra tanto no seu Prefácio quanto na sua Introdução, onde neste último a autora a divide em cinco seções: a) Críticas comuns da extração de valor; b) O quê é Valor?; c) Encontre a Fronteira da Produção; d) Por que o valor importa; e, e) A estrutura do livro.

A Creativante acredita que este é um livro que merece ler lido tanto pela ousadia em levantar a discussão do valor (em termos econômicos e políticos) nos dias atuais, quanto pela sua abordagem (estejamos concordando ou não com o que é defendido)!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre novas teorias do valor, não hesite em nos contatar!

(*) Gostaríamos de salientar que o que se buscou foi o tratamento de teorias do valor na sua dimensão econômica. Outras dimensões, como as teorias do valor sentimental, o valor espiritual, o valor artístico, além de outras, foram deixadas para uma outra oportunidade! Para os interessados nesta discussão, sugerimos a leitura do Oxford Handbook of Value Theory, que aborda o valor numa perspectiva filosófica.

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